Muitos aforradores olham para a sua carteira sem perceber bem como agir: a remuneração dos depósitos voltou a melhorar, os mercados acionistas continuam nervosos e os fundos tradicionais de capital privado costumam prender o dinheiro por mais de uma década. É precisamente nesse espaço que se posicionam os chamados fundos perenes. Estes juntam o acesso a empresas não cotadas com possibilidade de entrada contínua e janelas de saída bem definidas - uma combinação que também está a tornar-se cada vez mais apelativa para investidores particulares.
O que distingue os fundos perenes de capital privado dos fundos clássicos
Nos fundos fechados tradicionais de capital privado, logo à partida fica estabelecido quando o veículo termina. A equipa de gestão angaria capital, investe ao longo de vários anos, aliena depois as participações e distribui tudo no final. A partir daí, o fundo deixa de existir.
Os fundos perenes funcionam de outra maneira. São pensados para durar e operam sem prazo final fixo. Não há liquidação definitiva; na prática, o fundo vai sendo continuamente renovado. Essa estrutura altera bastante a experiência do investidor.
Os fundos perenes são veículos de capital privado sem data de fim - com entradas contínuas e oportunidades de saída reguladas.
Há três aspetos que fazem a diferença:
- Subscrição contínua: Em intervalos previamente definidos, o fundo aceita novo capital. Assim, o investidor pode entrar de forma regular, e não apenas numa curta janela de subscrição.
- Mecanismo automático de reinvestimento: Os ganhos provenientes de vendas ou os fluxos de caixa correntes ficam, em geral, no fundo e são reinvestidos. Isso reforça o efeito de capitalização composta.
- Janelas periódicas de resgate: Os investidores têm, em determinadas condições, a possibilidade de pedir o reembolso das unidades. Isso cria uma liquidez bastante superior, embora não diária.
Para muitos investidores particulares, há ainda outro ponto importante: os montantes mínimos de entrada costumam ser mais baixos do que nos fundos clássicos de capital privado. Além disso, desaparecem os temidos pedidos de capital adicional, em que o investidor tem de ir reforçando a aplicação ao longo de vários anos. Isso torna o planeamento muito mais simples.
Como os fundos perenes atenuam a típica «curva J» do capital privado
Quem estuda capital privado depara-se rapidamente com a famosa curva J: nos primeiros anos, os retornos são muitas vezes negativos. O fundo começa por suportar custos, investe em empresas que ainda precisam de crescer e só mais tarde surgem resultados através de vendas lucrativas.
Os fundos perenes lidam com este problema de forma diferente. Regra geral, combinam várias estratégias:
- Investimentos primários em novos fundos ou participações diretas
- Transações secundárias, isto é, a compra de participações de capital privado já existentes a outros investidores
- Co-investimentos diretamente ao lado de gestores de fundos experientes, em empresas específicas
Com esta combinação, o perfil torna-se claramente mais equilibrado. O capital não é aplicado apenas em participações jovens e ainda em desenvolvimento; parte dele entra também em ativos mais maduros, com fluxos de caixa já em curso. Isso pode encurtar bastante a fase inicial mais fraca e suavizar a evolução do valor.
Os fundos perenes bem geridos tentam alcançar, desde o início, uma diversificação mais ampla por prazos, setores e estratégias - e, assim, amortecem os solavancos de desempenho na fase de arranque.
Potencial de rendimento e perfil de risco para investidores particulares
Os fornecedores destes fundos apontam muitas vezes para rendibilidades líquidas anuais na ordem dos 6 a 10 por cento. Em simulações de exemplo, surge com frequência uma meta de cerca de 9 por cento líquidos por ano. Isto fica claramente acima da remuneração de depósitos, mas também de muitos fundos mistos tradicionais - embora, naturalmente, não esteja garantido.
O reverso da medalha é o risco: é superior ao de obrigações do Estado ou de um ETF simples sobre ações de grande capitalização. A volatilidade situa-se normalmente algures em torno dos 7 por cento por ano. O nível aproxima-se mais de uma estratégia mais agressiva de fundos mistos ou de ações, embora com outro motor de retorno em segundo plano.
Um ponto essencial: a liquidez aparentemente “melhor” tem um preço. Como o fundo precisa de conseguir responder a pedidos de resgate em qualquer momento, a gestão costuma manter uma almofada de meios líquidos e adotar uma política de vendas mais defensiva. Por isso, a rendibilidade pode ficar ligeiramente abaixo da de fundos clássicos de capital privado totalmente ilíquidos.
Como os fundos perenes entram, na prática, numa carteira
Em Portugal, o acesso faz-se muitas vezes através de produtos agregadores bem conhecidos. Várias seguradoras já incluem fundos perenes como componente de investimento em seguros de vida ou de pensões ligados a fundos. O investidor escolhe então, dentro do seu contrato, o respetivo bloco de investimento.
Também através de gestores de património e de consultores financeiros independentes é cada vez mais fácil subscrever estes produtos. A estrutura é muitas vezes desenhada como um “fundo de fundos” ou como uma plataforma que investe numa série de fundos-alvo especializados. Desta forma, o capital acaba distribuído por dezenas, e por vezes centenas, de empresas em todo o mundo.
As soluções perenes abrem um mercado que durante muito tempo foi quase exclusivo de grandes fundos de pensões, fundações e family offices - e que agora começa a ficar ao alcance de investidores particulares com mais património.
Peso típico numa carteira de fundos perenes
Os profissionais de gestão de património costumam recomendar uma posição moderada nestes fundos. A faixa mais referida situa-se entre 10 e 20 por cento do património líquido investível para investidores com tolerância ao risco média a elevada e horizonte temporal longo.
Uma possível distribuição seria a seguinte:
| Classe de ativo | Peso exemplificativo |
|---|---|
| Depósitos à ordem / liquidez de curto prazo | 10–15 % |
| Obrigações e produtos próximos do mercado monetário | 20–30 % |
| Ações / ETFs de ações | 35–50 % |
| Fundos perenes em capital privado | 10–20 % |
Desta forma, o núcleo do património continua líquido e amplamente disperso pelos mercados bolsistas, enquanto uma parcela específica é canalizada para empresas não cotadas, menos sujeitas a oscilações.
Que riscos os investidores devem analisar com atenção
Apesar de toda a flexibilidade, os fundos perenes não substituem uma conta de poupança. Há vários pontos que merecem uma análise cuidada:
- Regras de resgate: Em que intervalos é possível pedir a saída? Trimestralmente, semestralmente, anualmente?
- Limites de volume: Muitos fundos só permitem resgatar uma determinada percentagem do volume total em cada data de saída. Se esse teto for ultrapassado, alguns investidores têm de esperar.
- Prazos de antecedência: Muitas vezes é necessário avisar com várias semanas ou meses de antecedência para resgatar as unidades.
- Estrutura de comissões: Para além da comissão de gestão corrente, podem existir comissões de desempenho. A leitura atenta dos custos é obrigatória.
Quem investe em fundos perenes não deve precisar desse dinheiro nos anos seguintes - mesmo que o resgate seja, em princípio, possível.
Além disso, mantém-se o risco clássico do capital privado: empresas podem falhar, as valorizações podem cair e o refinanciamento pode ficar mais caro. Em fases de subida dos juros, as participações com maior endividamento ficam especialmente sob pressão.
Para quem os fundos perenes são particularmente adequados
O perfil destes produtos dirige-se sobretudo a três grupos de investidores:
- Investidores particulares com elevado património, que já dispõem de uma carteira base sólida e procuram, de forma seletiva, novas fontes de rendimento.
- Poupadores com orientação de longo prazo e elevada tolerância ao risco, que acedem a este tipo de produto através de seguros ou mandatos de gestão patrimonial.
- Fundações e investidores semiprofissionais, para quem as distribuições correntes não são a prioridade e que valorizam acima de tudo o crescimento do capital.
Os fundos perenes são menos adequados para quem precise, com segurança, de aceder ao dinheiro investido nos próximos três a cinco anos, por exemplo para comprar casa ou criar uma empresa. Também os investidores muito avessos ao risco, que perdem o sono com as oscilações, deverão provavelmente manter distância.
Termos que convém conhecer
Capital privado
Este termo abrange participações em empresas que não estão cotadas em bolsa. Os gestores compram empresas, total ou parcialmente, desenvolvem-nas e vendem-nas mais tarde - idealmente com lucro. Os ganhos surgem muitas vezes ao longo de vários anos, mas, em contrapartida, os preços não são visíveis diariamente no mercado bolsista.
Mercado secundário no capital privado
Aqui, as participações em fundos de capital privado ou em carteiras já existentes mudam de mãos. Um fundo perene pode adquirir esses blocos e beneficia do facto de as empresas subjacentes já estarem mais desenvolvidas e, em parte, já gerarem fluxos de caixa.
Co-investimento
Investimento em conjunto com um gestor de fundos de referência numa empresa específica. O fundo perene participa diretamente nas operações sem ter de comprar uma participação integral num fundo. Isso costuma reduzir as comissões e aumentar o ritmo de projetos interessantes.
Como os investidores podem combinar fundos perenes de forma sensata
O tema torna-se especialmente interessante quando os fundos perenes são articulados com outros blocos da carteira. Por exemplo: um investidor já detém um ETF global de ações e uma carteira robusta de obrigações. Ao acrescentar uma pequena quota de fundos perenes, introduz um motor adicional de retorno, menos dependente do humor diário dos mercados.
Também em estratégias familiares estes produtos podem ter utilidade: uma parte do património continua muito líquida e funciona como fundo de emergência, outra parte trabalha em ações e fundos, enquanto o bloco perene procura, no longo prazo, valorização em segundo plano. Assim, ao longo dos anos, forma-se uma estrutura mais estável, capaz de aguentar melhor as oscilações.
Quem estiver a ponderar esta opção deve pedir ao consultor exemplos concretos de simulação: como teria evoluído uma carteira com componente perene em crises passadas? Como reage a subidas das taxas de juro e a anos mais fracos para as bolsas? As respostas ajudam a perceber se esta forma de capital privado se ajusta, de facto, à vida financeira de cada um.
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