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O “olhar das necessidades” do cão: não é mania, é comunicação

Mulher de joelhos no parque segura saco de plástico enquanto treina cão Labrador amarelo sentado na relva.

Quem passeia com o seu cão conhece bem a cena: o animal baixa-se para fazer as necessidades, fica imóvel - e, de repente, fixa a pessoa com um olhar sério. Para alguns, é uma situação divertida; para outros, chega a ser desconfortável. Mas este comportamento tem razões biológicas e emocionais muito claras, e diz bastante sobre a relação entre humano e animal.

O “olhar das necessidades” do cão: não é mania, é comunicação

Os cães quase nunca fazem algo “só porque sim”. Também o olhar fixo enquanto fazem as necessidades é um sinal. Na opinião de muitos especialistas em comportamento, há aqui um factor essencial: a reacção da pessoa.

O cão olha para confirmar: “Está tudo bem para ti?”

Muitos animais aprenderam que o local onde fazem as necessidades é importante. Se, em tempos, o tutor ralhou porque o cão sujou a sala ou o hall de entrada, sem querer criou alguma insegurança. O cão grava a associação: local A = bronca, local B (por exemplo, relva ou o passeio da rua) = sem bronca, talvez até elogio.

Se o tutor estiver por perto, esse olhar intenso durante o momento em que o cão se agacha pode significar:

  • “Espero que este seja o sítio certo.”
  • “Vais reagir bem - ou ficas chateado?”
  • “Estou a guiar-me por ti; diz-me se está tudo bem.”

Os cães mais sensíveis chegam quase a fitar a pessoa de forma avaliativa. Isso está ligado ao respeito e à insegurança, não à teimosia.

Senta, deita, cocó - quando o cão espera pela recompensa

Uma segunda razão frequente está na história da educação. Sobretudo com cachorros, muitos tutores usam elogios consistentes ou um petisco assim que o animal faz as necessidades cá fora. O cão jovem cria então muito depressa a ligação:

“Faço as minhas necessidades lá fora, olho para o meu humano - e depois acontece alguma coisa boa.”

Mesmo que o petisco deixe de ser dado mais tarde, esse padrão muitas vezes continua na cabeça do cão. Alguns animais ainda esperam, anos depois, pela recompensa de sempre e, por isso, mantêm contacto visual de forma instintiva. O olhar passa então a dizer apenas:

“Então, hoje também há qualquer coisa boa?”

Mesmo quando já não vem nada, o cão sente-se reforçado por um “Muito bem!” dito com simpatia. A voz, o tom e talvez uma breve festa no fim contam, para ele, como reforço social.

Fundamento biológico: uma posição vulnerável, muita confiança

Quem observa o cão agachado percebe logo uma coisa: naquele instante, ele mal poderia defender-se pior.

  • as patas traseiras estão em carga
  • a zona da barriga fica exposta
  • a atenção fica temporariamente reduzida

Os biólogos do comportamento referem aqui a origem no lobo. Nos grupos que vivem em liberdade, são normalmente outros animais que asseguram o ambiente enquanto um come, dorme ou se alivia. É precisamente esse padrão antigo que ainda hoje se observa na relação entre humano e cão.

O cão vê o seu humano como a sua “equipa de segurança” - sobretudo nos momentos em que se sente vulnerável.

Por isso, o olhar também pode querer dizer: “Vigie o que está à nossa volta; eu confio em si.” Se o tutor estiver calmo ao lado, transmite segurança. Alguns cães parecem até pedir isso de forma explícita: “Acompanha-me só um bocadinho.”

Ao mesmo tempo, nestas situações, os níveis da hormona da ligação, a oxitocina, costumam subir - em ambos. O contacto visual, a proximidade familiar e uma voz serena reforçam de forma mensurável a ligação emocional entre cão e humano.

O cão procura protecção - ou quer sossego?

O interessante é que nem todos os cães interpretam o contacto visual da mesma maneira. Alguns procuram activamente proximidade e segurança. Outros parecem olhar com um ar quase aborrecido, como se dissessem: “Tens mesmo de estar a olhar para aqui?”

Estes significados possíveis dependem do tipo de comportamento observado:

Comportamento observado Possível interpretação
Olhar fixo, tenso Insegurança, expectativa de reacção, experiências negativas anteriores
Olhar curto e suave, seguido de novo controlo do ambiente Pedido de segurança: “Está tudo bem, podes vigiar?”
O olhar parece quase irritado, o cão afasta-se mais depressa Necessidade de sossego, desejo de um pouco mais de “privacidade”
Postura descontraída, cauda neutra ou a abanar ligeiramente Expectativa de elogio ou petisco, associação positiva

Quem conhece bem o seu cão consegue perceber rapidamente, através da postura corporal, da posição da cauda e da expressão facial, para que lado tende esse comportamento.

O que os tutores devem fazer - e o que é melhor evitar

Muitas pessoas reagem por impulso, por exemplo a rir, a ralhar ou a desviar-se de repente. Exactamente isso pode deixar o cão confuso. O melhor é dar sinais claros e tranquilos.

Mantenha a calma e transmita segurança

  • fique quieto e sereno, sem andar aos nervos no mesmo sítio
  • não ralhe alto nem diga “Despacha-te!” com irritação
  • use um tom simpático e calmo, se disser alguma coisa
  • depois de o cão terminar, um elogio breve como “Muito bem” basta perfeitamente

Assim cria-se uma mensagem consistente: fazer as necessidades lá fora = situação positiva e descontraída. Isso ajuda tanto na aprendizagem de fazer as necessidades no sítio certo como na ligação entre ambos.

Estes erros deixam o cão inseguro

  • castigar ou gritar durante ou logo após o momento
  • puxar pela trela porque se tem pressa
  • andar constantemente de um lado para o outro junto do cão
  • fazer comentários zangados quando o local não é, aos olhos humanos, “prático”

Depois de episódios antigos dentro de casa, alguns tutores tendem a exagerar quando estão na rua. O cão, porém, não compreende essa lógica humana - apenas percebe: “Quando faço as minhas necessidades, às vezes o meu humano torna-se imprevisível.” Isso aumenta o olhar intenso e a insegurança.

Quando o olhar pode indicar um problema

Na grande maioria dos casos, esse olhar é totalmente inofensivo. Ainda assim, há situações em que os tutores devem observar melhor.

  • O cão parece sempre muito tenso ou com medo.
  • Procura um local durante muito tempo, agacha-se várias vezes e volta a interromper.
  • Só faz as necessidades se a pessoa estiver mesmo ao lado e a olhar para ele.

Nessas situações, pode haver um problema médico por trás - dores, perturbações digestivas - ou uma dependência muito forte, quase pouco saudável, da reacção do tutor. Nesses casos, ajuda conversar com o veterinário e, se fisicamente estiver tudo em ordem, com um treinador de cães experiente ou um terapeuta comportamental.

Como habituar os cachorros, desde cedo, de forma tranquila

Sobretudo nos cães jovens, é possível definir as bases logo de início. Um processo simples e claro ajuda imenso:

  • sair logo para a rua depois de dormir, comer e brincar
  • esperar com calma, sem distrair o animal e sem jogos agitados nesse momento
  • assim que o cachorro fizer as necessidades: elogiar baixinho, fazer uma pequena festa e dar um petisco
  • não castigar dentro de casa - limpar o acidente sem comentários

Desta forma, o cão percebe: “Lá fora é o sítio certo; cá dentro, simplesmente não acontece nada de especial.” Muitos problemas futuros com olhares ansiosos ou insegurança acentuada nem chegam a surgir.

Porque é que este pequeno momento diz tanto sobre a ligação

Quem, no passeio seguinte, reparar no olhar do seu cão ganha uma visão bastante honesta da relação. Um cão descontraído e confiante costuma fazer as necessidades sem grande demora, olha rapidamente para a pessoa, verifica o que precisa de verificar e regressa logo ao “modo passeio”.

Um estilo de acompanhamento demasiado controlador ou totalmente indiferente por parte do tutor também se reflecte nestes segundos. Por vezes sob a forma de insegurança, por vezes sob a forma de expectativa evidente (“Ainda me deves um petisco!”).

Quem aprende a ler este comportamento compreende melhor o seu companheiro de quatro patas - não só na relva, mas de um modo geral no dia a dia. O olhar das necessidades deixa então de ser um momento embaraçoso e passa a ser um pequeno controlo silencioso: “Somos uma equipa?”

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