No Reino Unido, os Cocker Spaniels e os Springer Spaniels estão entre as raças de cães mais apreciadas de sempre. Ainda assim, cada vez mais pessoas acabam por os entregar de novo, porque se sentem ultrapassadas pela tarefa. Na origem, regra geral, não estão “cães-problema”, mas sim ideias erradas muito teimosas sobre a raça - sobretudo sobre a quantidade de exercício de que precisam e sobre a forma como supostamente se educariam “sozinhos”.
Spaniels: raça popular com um lado sombrio
Os spaniels reconhecem-se à primeira vista: orelhas compridas e caídas, pelo macio, olhar alerta e corpo compacto. Parecem simpáticos, confortáveis, quase o molde perfeito do cão de família. Ao mesmo tempo, trazem consigo um forte legado de trabalho: durante décadas, acompanharam caçadores em campos e florestas, procuravam caça e colaboravam de perto com as pessoas.
É precisamente essa combinação que hoje está a criar dificuldades. Especialistas britânicos relatam que os spaniels acabam em organizações de proteção animal com muito mais frequência do que acontecia há poucos anos. O número total de cães entregues mantém-se relativamente estável, mas a percentagem de spaniels sobe de forma acentuada. Os abrigos assinalam canis cheios e listas de espera longas.
“Os spaniels raramente nascem ‘difíceis’ - na maioria das vezes, são simplesmente mal compreendidos.”
Muitos tutores descrevem casas destruídas, cães que deixaram de responder ao chamamento ou comportamentos extremamente nervosos. Nas redes sociais, donos desesperados procuram ajuda - e encontram muitas vezes sugestões bem-intencionadas, mas erradas. Três mitos repetem-se como um fio condutor nestes pedidos de ajuda.
Mito 1: os spaniels precisam de horas de exercício todos os dias
Poucas frases se ouvem tanto como esta: “Com um spaniel, eu teria de passear três horas por dia.” Por trás dela está um equívoco sobre a história de trabalho da raça. Sim, os spaniels foram criados para aguentar dias longos no terreno. Mas faziam-no não em corrida contínua, e sim num trabalho controlado em cooperação com o ser humano.
A mensagem decisiva da prática é esta: fazer mais quilómetros não resolve a maior parte dos problemas - em muitos casos, até os agrava.
“Quem ‘gasta’ o seu spaniel todos os dias com passeios intermináveis acaba rapidamente por criar um atleta de alta competição com adrenalina permanente.”
Em vez de horas a atirar bolas ou de corridas sem fim, um spaniel precisa de uma combinação de:
- Esforço físico moderado - passeios a bom ritmo, liberdade para correr, e de vez em quando uma pequena volta pela floresta.
- Trabalho mental - exercícios de olfato, jogos de procura, treino simples de apports, truques que exijam concentração.
- Aprender a acalmar-se - relaxamento intencional dentro de casa, pequenos períodos de descanso depois de cada atividade, sinais claros para “desligar”.
Sobretudo este último ponto falta a muitos cães. Aprendem a correr cada vez mais depressa, mas nunca a voltar a abrandar. O resultado é um companheiro muito agitado, que exige constantemente “mais” e não consegue descansar bem em casa.
Do ponto de vista de treino, um dia equilibrado parece antes isto:
| Parte do dia | Exemplo de ocupação útil |
|---|---|
| Manhã | 30–45 minutos de passeio com trela de arrasto, com exercícios de “senta” e “aqui” pelo meio |
| Meio-dia / início da noite | 10–15 minutos de trabalho de nariz ou procura de dummy no jardim ou no parque |
| Casa | Vários períodos de descanso bem assinalados, objetos para roer, deitar-se na manta |
Um spaniel orientado desta forma consegue, apesar de tempos de corrida relativamente curtos, adormecer contente e a ressonar no tapete, em vez de andar a disparar pela sala como um coelho Duracell.
Mito 2: “isso passa, ele só está na adolescência”
Por volta dos oito meses de idade, surge em muitos tutores a mesma esperança: o cão está a testar limites, obedece pior, mostra-se inquieto - e a pessoa convence-se de que é “só a fase da adolescência”. Algum dia, isso há de passar por si.
Os especialistas não vêem as coisas assim. Nessa altura, aproximadamente entre os seis e os 18 meses de idade, o comportamento de um cão molda-se de forma especialmente forte. O que ele repete agora, treina-o - tanto no bom como no mau sentido.
“Um spaniel não cresce para fora dos problemas. Cresce para dentro deles, se ninguém intervier.”
Sinais típicos nesta fase:
- O cão afasta-se cada vez mais do tutor durante os passeios.
- Estímulos como cheiro de caça, ciclistas ou outros cães tornam-se de repente mais interessantes do que qualquer chamado.
- Limites que antes eram respeitados passam a ser testados de forma ostensiva.
Quem pensa agora “isto há de passar” está a deixar a educação ao acaso. Mais útil é intervir de forma consciente:
Sessões curtas e claras de treino: três vezes cinco minutos por dia, com trabalho realmente concentrado, valem mais do que uma sessão de 20 minutos feita pela metade. O chamamento, a condução à trela, o “fica” e a tolerância à frustração devem entrar nesta fase na rotina.
Estrutura no quotidiano: horários fixos ajudam imenso os cães. Momentos claros para passeios, comida e descanso - e nada de entretenimento permanente. Os spaniels, em particular, tendem a arranjar eles próprios o seu “programa”, se ninguém lhes der orientação.
Impor limites com simpatia, mas de forma firme: se o cão não vier ao primeiro chamamento, não se repete “aqui” cinco vezes; treina-se com trela de arrasto para garantir segurança. Assim evita-se que o chamamento se transforme num simples ruído de fundo.
Mito 3: o “crockerdile” é só uma fase engraçada
Em muitos grupos online, circula em tom de brincadeira o termo “crockerdile” para designar cachorros Cocker que gostam de morder com força mãos, roupa ou pés. A mensagem por trás disso costuma ser: “Ri-te, que passa.” Para treinadores profissionais, isso é um sinal de alarme.
Originalmente, os spaniels foram selecionados para transportar a presa na boca da forma mais suave possível, sem a magoar. Uma mordida forte e dirigida não corresponde a esse perfil de raça. Quando um cachorro agarra com frequência e com força, quase sempre há mais qualquer coisa em jogo do que “mordiscar normal”.
“Minimizar mordidelas fortes é deixar de lado um verdadeiro sinal de aviso - e arrisca problemas na idade adulta.”
Resposta sensata do ponto de vista do treino:
- Limite claro: se o cachorro toca na pele com os dentes, o jogo termina de imediato. Sem ralhar, sem drama - apenas calma e interrupção do contacto.
- Alternativas adequadas: brinquedos para roer, jogos de puxar com regras (largar ao sinal), jogos de comida. Assim, a boca continua ocupada, mas de forma socialmente aceitável.
- Verificar fatores de stress: cansaço excessivo, sobre-estimulação ou frustração intensificam o comportamento de morder. Sessões de brincadeira mais curtas e mais pausas reduzem a excitação.
Se o assunto for levado a sério desde cedo, o cão aprende isto: usar os dentes na pele humana nunca compensa, enquanto o comportamento calmo traz atenção.
Porque é que é precisamente nos spaniels que isto falha tantas vezes
Os spaniels encaixam na perfeição no espírito da época: têm um aspeto querido, parecem alegres e ficam bem em fotografias com ar de família feliz. Nas redes sociais, são muitas vezes apresentados como acessórios - numa carrinha de campismo, num café, na praia. Isso cria desejo e alimenta compras por impulso.
O que muitas pessoas só percebem mais tarde é que, por trás do “cão de Instagram”, está um trabalhador altamente motivado, com forte instinto de caça, um olfato apurado e grande resistência. Quem não canaliza estas capacidades acaba depressa com um cão que inventa as suas próprias tarefas - por exemplo, correr atrás de corredores, destruir vedação do jardim ou passar horas a “vigiar” o quintal.
Quem estiver a pensar em ter um spaniel deve responder honestamente a algumas perguntas:
- Tenho tempo para treino diário e curto, e não apenas para passeios?
- Estou disposto a aplicar regras, mesmo quando o cão me “pede” com os seus olhos redondos?
- Consigo, se for preciso, pedir ajuda profissional antes de os problemas piorarem?
Como é que um spaniel realmente se torna um cão adaptado ao dia a dia
Com a abordagem certa, um spaniel pode ser um excelente cão de família: afetuoso, bem-disposto, normalmente de bom humor e extremamente ligado às pessoas. O caminho até lá passa por estruturas claras e atividades adequadas à raça - não por ação cega e descontrolada.
Alguns blocos úteis para isso são, por exemplo:
- Trabalho de nariz: procurar comida na relva, esconder pequenos dummys, seguir e acompanhar pistas.
- Controlo de impulsos: o cão senta-se e espera enquanto uma bola rola ou um dummy voa - só recebe autorização ao sinal.
- Sinais de descanso: locais fixos para repousar e um sinal como “manta”, que signifique mesmo relaxamento e não “daqui a pouco continuamos”.
Quem se aproxima do assunto desta forma não precisa de “cansar” o spaniel até ao limite para o deixar exausto. O animal aprende a lidar com as próprias emoções e consegue suportar melhor situações mais intensas. Isso reduz a probabilidade de reagir com mordidas, latidos ou destruição quando algo o ultrapassa.
Para muitos tutores, vale a pena olhar com atenção para os termos que costumam surgir no treino de cães: “linha de trabalho”, “linha de exposição”, “instinto de caça”, “nível de excitação”. Nos spaniels, a linha de criação determina em grande medida quanta energia o cão traz consigo e quão fácil é conduzi-lo no quotidiano. Um criador que fale abertamente sobre as tarefas que os seus cães já desempenharam ajuda imenso os interessados a decidir.
Quem vê os spaniels pelo que eles são - cães sensíveis, inteligentes e com gosto pelo trabalho - e não como um acessório bonito, tem excelentes hipóteses de viver muitos anos tranquilos com um companheiro leal. A suposta obrigação de passeios de horas desaparece, muito depressa, para o reino dos mitos.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário