Longe de tudo, sozinho numa cratera de um planeta habitado apenas por robôs, o rover Perseverance da NASA explora uma paisagem seca que, há milhares de milhões de anos, foi um sistema fluvial.
No entanto, uma nova descoberta indica que o Delta de Jezero, em Marte, não é o único vestígio da abundante água que outrora correu pela superfície. O instrumento RIMFAX do Perseverance sondou agora mais fundo do que nunca sob a cratera de Jezero, revelando um vasto sistema deltaico alimentado por água corrente, existente muito antes daquele que o rover investiga atualmente.
Isto sugere, por sua vez, que a água circulou à superfície de Marte durante muito mais tempo do que a superfície, por si só, deixa perceber - uma conclusão com implicações importantes para a habitabilidade passada do planeta.
"No geral, o RIMFAX revela um sistema fluvial mais amplo do que o observado a partir da órbita, e aponta para uma janela mais prolongada de deposição fluvial, alteração aquosa e condições habitáveis do que se pensava anteriormente na cratera de Jezero", disse à ScienceAlert a geomicrobióloga Emily Cardarelli, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.
"O RIMFAX revelou um ambiente deltaico subsuperficial mais antigo sob o delta atual, alargando assim ainda mais no tempo o período de potencial habitabilidade de Jezero."
Após muitos anos de exploração dedicada, tornou-se claro que Marte nem sempre foi o planeta árido, enferrujado e poeirento que é hoje. Várias linhas de evidência mostram que a água correu em abundância no passado, desde paisagens moldadas por ela até minerais que só poderiam ter-se formado na presença de água líquida.
Isto levanta outras questões. Uma das mais urgentes no que diz respeito à habitabilidade é durante quanto tempo a água líquida persistiu à superfície de Marte. Um período mais longo oferece uma janela maior para o surgimento de micróbios, que os cientistas consideram ser a forma de vida mais provável que possa ter existido em Marte.
De forma geral, a paisagem marciana foi muito bem preservada ao longo de milhares de milhões de anos, já que não está sujeita às mesmas condições tectónicas e meteorológicas que existem na Terra. Pensa-se que o Delta de Jezero, que o Perseverance está a explorar, tenha cerca de 3,7 mil milhões de anos, remontando ao final do Noaquiano e início do Hesperiano.
Contudo, esse é precisamente o período em que se sabe que Marte tinha água à superfície - e a água corrente à superfície cria condições para uma erosão mais intensa e para deposição de sedimentos.
A formação e evolução de alguns dos depósitos minerais da cratera de Jezero têm intrigado os cientistas, em particular uma unidade rica em carbonatos e olivina conhecida como Margin. Para investigar de que forma se formou a unidade Margin, os investigadores recorreram ao RIMFAX do Perseverance para procurar pistas em profundidade no subsolo.
Ao longo de 78 percursos entre setembro de 2023 e fevereiro de 2024, o Perseverance fez repetidamente medições com o seu radar de penetração no solo, recolhendo dados ao longo de um trajeto com cerca de 6,1 quilómetros. Essas medições atingiram profundidades superiores a 35 metros.
À medida que os investigadores começaram a juntar os dados, uma paisagem deltaica escondida foi emergindo da escuridão.
"No momento em que vimos o radargrama do Sol 909, percebemos que esta unidade era mais transparente ao radar do que outras unidades que já tínhamos observado. À medida que continuámos a avançar sobre a unidade Margin, conseguimos ver cada vez mais fundo na subsuperfície, até cerca de 35 metros", disse Cardarelli.
"O radargrama do Sol 1052 foi particularmente entusiasmante, porque começámos a ver estruturas complexas em profundidade que nunca tínhamos visto antes!"
Os dados de radar revelaram numerosas camadas de rocha a estenderem-se em profundidade no subsolo, organizadas em padrões inclinados que, na Terra, são típicos de sedimentos depositados pela água à medida que esta flui para uma bacia ampla.
Os investigadores identificaram também estruturas em lobo e em canal compatíveis com formação por água corrente, além de escavações erosivas, backsets e blocos rochosos enterrados.
"Estas são características comuns no desenvolvimento de sistemas fluviais, embora a sua preservação nem sempre esteja garantida, porque os sistemas fluviais são dinâmicos", afirmou Cardarelli.
Embora o radar apenas sonde algumas dezenas de metros abaixo do solo em cada local, a combinação dessas medições ao longo de toda a travessia do Perseverance permite aos cientistas reconstruir um depósito muito mais espesso.
Esta medição combinada sugere que a unidade Margin poderá ter até 90 metros de espessura, resultado de múltiplos episódios de deposição, com sinais de alguma erosão entre eles. Com base no contexto geológico da cratera de Jezero, os investigadores estimaram que a região acolheu um sistema deltaico funcional já no Noaquiano, há cerca de 4,2 a 3,7 mil milhões de anos.
"Estimamos que a unidade Margin tenha uma espessura real, ou extensão vertical efetiva, de pelo menos 85 a 90 metros", disse Cardarelli.
"As estruturas que documentamos variam em tamanho desde menos de um metro até centenas de metros de comprimento."
Em conjunto, as evidências sugerem que Marte não teve água apenas durante um curto período, mas passou por várias fases em que a água correu e moldou a sua superfície. Essa história hídrica mais prolongada alarga a janela de oportunidade para o aparecimento de vida.
"Este trabalho poderá também ter implicações para a preservação de potenciais bioassinaturas e para a habitabilidade na subsuperfície da cratera de Jezero", escrevem os investigadores.
"Estruturas internas de pequena escala podem preservar composições minerais e condições geoquímicas de eventos passados relacionados com a água, e podem ter proporcionado, no passado, condições habitáveis."
A investigação foi publicada na Science Advances.
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