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Café diário: saiba como afeta o coração e o fígado

Homem sentado com um chá quente nas mãos, à mesa com termómetro e medidor de pressão arterial.

O café foi, durante décadas, visto como um hábito arriscado: mau para o coração, a subir a tensão arterial e a sobrecarregar o fígado. Estudos de grande dimensão publicados recentemente inverteram essa ideia. Para quem o bebe em quantidades razoáveis, o conhecimento atual aponta antes para um efeito protetor sobre o coração, os vasos sanguíneos e o fígado - com algumas exceções importantes.

O que acontece no organismo quando bebes café todos os dias

O café é muito mais do que cafeína. Em cada chávena há centenas de substâncias biologicamente ativas: antioxidantes, polifenóis e compostos amargos. Quando uma pessoa passa a beber regularmente duas a quatro chávenas por dia, o corpo adapta-se a essa combinação - e isso faz toda a diferença.

No início, em quem não está habituado ou bebe apenas de vez em quando, o café provoca muitas vezes um aumento breve da tensão arterial, acelera o pulso e, por vezes, causa nervosismo. Mas quem toma café diariamente há anos apresenta outro padrão nos estudos:

  • os vasos tornam-se mais elásticos
  • a camada interna dos vasos sanguíneos (endotélio) funciona de forma mais estável
  • os processos inflamatórios diminuem
  • os radicais livres são neutralizados com maior eficácia

Os cardiologistas veem hoje o consumo moderado de café mais como um aliado do sistema cardiovascular do que como um inimigo.

É precisamente este efeito de adaptação que explica porque é que um “exagero” ocasional de café tem um impacto completamente diferente de duas a quatro chávenas por dia.

O maior mito do café: será que estraga a tensão arterial?

Muitos médicos de família ainda desaconselham o café quase por reflexo quando um doente chega com tensão arterial elevada. As sociedades científicas, porém, encaram hoje a questão de forma bem mais tranquila. Os dados disponíveis sugerem que o consumo regular e moderado de café tende, a longo prazo, a baixar ou a estabilizar a tensão arterial.

A distinção importante é esta:

  • Beber muito café de forma ocasional em pessoas que normalmente quase não o consomem pode fazer subir de forma marcada e temporária a tensão arterial e o pulso.
  • Beber 2–4 chávenas por dia de forma consistente leva, ao longo do tempo, a adaptações no sistema vascular - e então a tensão mantém-se estável ou até desce ligeiramente.

As pessoas com hipertensão diagnosticada, segundo os estudos, podem geralmente ficar mais descansadas: quem está bem controlado e toma a medicação como foi prescrita tolera, em muitos casos, duas a três chávenas de café por dia. Ainda assim, isto deve ser discutido individualmente com o médico ou a médica assistente, sobretudo se existirem arritmias ou doença renal.

Como o café atua no coração e na circulação

Vários estudos observacionais de grande escala, com dezenas de milhares de participantes, chegam a conclusões semelhantes: quem bebe café com moderação tem menor risco de morrer por doenças cardiovasculares. Suspeitam-se vários mecanismos:

  • melhor funcionamento dos vasos sanguíneos
  • efeito favorável sobre as gorduras no sangue
  • alguma proteção contra a fibrilhação auricular em certas análises
  • menor inflamação crónica no organismo

Quem bebe café sem lhe juntar muito açúcar e natas gordas, do ponto de vista cardiológico, tem em regra muito menos motivo para preocupação do que a reputação da bebida faria supor.

Um dado curioso: em muitos estudos, o efeito protetor aparece tanto no café filtrado clássico como no expresso - desde que a quantidade se mantenha dentro de limites razoáveis.

Fígado sob pressão? Como o café pode aliviar os órgãos

O olhar para o fígado é particularmente impressionante. Este órgão filtra toxinas, metaboliza medicamentos e reage de forma sensível ao álcool, ao excesso de peso e a certas alterações metabólicas. E, no entanto, é precisamente o café que parece ajudá-lo.

Pessoas com fígado gordo, seja por álcool seja por problemas metabólicos, apresentam resultados melhores nos estudos quando bebem café com regularidade. Foram observados:

  • menor grau de fígado gordo
  • agravamento mais lento de lesões hepáticas já existentes
  • menor risco de cirrose e de algumas formas de cancro do fígado

Os mecanismos exatos ainda não estão totalmente esclarecidos. Os antioxidantes do café são apontados como suspeitos, porque podem travar processos inflamatórios no fígado. Também parece ter importância uma melhoria do metabolismo da glicose, já que valores de açúcar persistentemente elevados favorecem o fígado gordo.

Café e metabolismo: risco ou ajuda no diabetes?

Durante muito tempo, o café foi acusado de prejudicar o metabolismo. Os dados mais recentes contam outra história. Quem bebe café com regularidade tende a ter menor risco de diabetes tipo 2. Nas pessoas que já têm uma alteração metabólica, é frequente observar-se uma glicemia mais estável quando o consumo se mantém em níveis moderados.

Vários efeitos atuam em conjunto:

  • o café influencia positivamente a sensibilidade à insulina
  • o gasto energético sobe ligeiramente
  • o fígado liberta menos açúcar para o sangue

Para isto resultar, porém, a conta tem de fechar: quem adoça cada chávena com muito açúcar, xarope ou natas aumenta bastante a ingestão de calorias e de açúcar. Nesse caso, o eventual efeito positivo depressa se transforma no contrário.

O café prejudica os rins?

Outro mito muito repetido: o café favoreceria a formação de pedras nos rins. Isso não bate certo com os dados disponíveis. Em अनेक estudos, o consumo moderado de café não mostrou qualquer aumento do risco de cálculos renais; em alguns casos, o risco parece até ligeiramente mais baixo.

Há, no entanto, um ponto a não esquecer: o café tem efeito diurético. Quem bebe várias chávenas por dia perde mais líquido pela urina. Só se torna problemático se, em paralelo, se beber pouca água ou chá sem açúcar.

Quem bebe café deve planear pelo menos um copo de água por cada chávena, para manter o equilíbrio dos líquidos em ordem.

Filtrado, solúvel ou descafeinado - faz diferença?

Muitos consideram o café solúvel de qualidade inferior ou até “químico”. Os grandes estudos contradizem claramente essa ideia: também o café solúvel mostra efeitos positivos no coração, no fígado e no metabolismo, ainda que ligeiramente menos marcados do que o café de filtro acabado de moer ou o expresso.

Uma comparação rápida:

Variedade de café Benefícios possíveis O que ter em conta?
Café filtrado bons dados científicos, muitos antioxidantes, menos certas gorduras o filtro de papel retém substâncias que podem aumentar o colesterol
Expresso aroma mais concentrado, normalmente porções menores não é filtrado, contém mais substâncias do café que podem influenciar ligeiramente as gorduras no sangue
Café solúvel prático, efeito igualmente positivo se não tiver açúcar verificar os aditivos na embalagem, sobretudo açúcar e aromas
Café descafeinado mantém muitas substâncias, adequado para quem é sensível à cafeína prestar atenção a processos de descafeinação suaves

Também o café descafeinado mostra, nos estudos, benefícios para o coração e o fígado - embora frequentemente um pouco atenuados. Para pessoas com insónias, palpitações ou durante a gravidez, pode ser uma alternativa sensata.

Café na gravidez: melhor limitar de forma rigorosa

Por mais positivos que sejam os dados para a população em geral, na gravidez a situação é claramente mais delicada. Durante a gestação, o corpo demora mais tempo a eliminar a cafeína. Ela atravessa a placenta e chega diretamente ao feto, cuja fígado quase não consegue processá-la.

Os estudos dão sinais mistos:

  • por vezes, menor risco de hipertensão da gravidez ou diabetes gestacional
  • ao mesmo tempo, indícios de maior risco de aborto espontâneo e parto prematuro
  • registos de possíveis efeitos metabólicos desfavoráveis na criança mais tarde na vida

As sociedades científicas recomendam que as grávidas limitem fortemente o café e, se necessário, optem por versões descafeinadas.

Quem já está grávida ou está a planear uma gravidez deve discutir a situação individual com o obstetra. Isto é ainda mais importante se houver outras fontes de cafeína, como bebidas energéticas, chá preto ou cola, porque a carga total sobe rapidamente.

Quanto café por dia continua a ser considerado aceitável?

Na maioria dos estudos, surge uma faixa que parece favorável ou, pelo menos, segura: duas a quatro chávenas por dia, consoante o tamanho da chávena e o teor de cafeína. Pessoas muito sensíveis à cafeína toleram melhor uma ou duas chávenas; outras suportam claramente mais.

Como orientação prática para adultos saudáveis:

  • 1–2 chávenas por dia: normalmente bem toleradas, com possibilidade de benefícios iniciais
  • 2–4 chávenas por dia: intervalo com os benefícios para a saúde mais evidentes em muitos estudos
  • a partir de 5 chávenas: aumenta o risco de agitação, insónias e problemas gástricos

O essencial é observar como o próprio corpo reage: tremores, palpitações, sensação de pressão no peito ou perturbações sérias do sono são sinais claros para reduzir a quantidade ou mudar para café descafeinado.

Armadilhas habituais do dia a dia: quando o café se torna um problema

Nem toda a rotina de café é automaticamente saudável. A situação complica-se sobretudo em certas combinações:

  • usar o café como substituto da água ao longo de todo o dia
  • transformar o café numa “sobremesa líquida” com xarope, natas, caramelo e muito açúcar
  • beber café em jejum com um trato gastrointestinal sensível
  • consumir muito café ao fim do dia e depois ter dificuldades em dormir

Quem tiver estes pontos em mente consegue encaixar o café numa alimentação globalmente saudável com relativa facilidade. O ideal é acompanhar cada chávena com um copo de água e deixar várias horas entre a última chávena e a hora de deitar.

O que muita gente esquece: o café atua de forma diferente em cada pessoa

Genética, função hepática, medicação, estado hormonal - tudo isto influencia a forma como alguém reage ao café. Há quem se sinta perfeitamente tranquilo depois de um expresso à noite, enquanto outra pessoa fica acordada horas após uma pequena chávena à tarde.

Quem toma medicamentos para o coração, para a saúde mental ou para o fígado deve, em princípio, falar sobre o consumo de cafeína com o médico ou a médica. O café pode alterar a forma como certas substâncias são degradadas no fígado, ainda que isso seja frequentemente subestimado no quotidiano.

No fim, o café continua a ser uma das bebidas mais estudadas do mundo. O balanço dos últimos anos é, para muitos, surpreendentemente favorável: em quantidades moderadas, funciona mais como uma pequena medicação diária para o coração, os vasos sanguíneos e o fígado - desde que o copo de água esteja sempre ao lado e a chávena não venha cheia até cima de açúcar.

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