A rapariga no café não devia ter mais de 19 anos. O café arrefecia-lhe à frente, enquanto o polegar insistia em deslizar, deslizar, deslizar por um fluxo do TikTok que parecia não ter fim. A cada poucos segundos, a expressão mudava: um riso curto, um franzir de sobrolho, uma careta quase impercetível quando passava um corpo “perfeito” ou uma vida “perfeita”.
O amigo tentava falar-lhe de um exame. Ela ia acenando com a cabeça sem realmente ouvir, com os olhos colados ao ecrã. Quando ele finalmente perguntou o que se passava, ela encolheu os ombros e disse: “Toda a gente está melhor do que eu.”
A frase ficou suspensa no ar.
É este o desastre silencioso por trás dos nossos ecrãs.
Porque jovens adultos e redes sociais são uma combinação de alto risco
Passeie por qualquer campus universitário e vai reparar em algo estranho: há pessoas em grupo, mas raramente “juntas”. Cabeças baixas, ecrãs erguidos, rostos tingidos pelo brilho azulado das notificações e do deslizar interminável.
As redes sociais foram apresentadas aos jovens adultos como uma ferramenta de ligação. Na prática, muitos receberam um placar ligado 24 horas por dia, 7 dias por semana, para medir popularidade, aparência, sucesso - e também indignação. E há um detalhe biológico que importa: aos 18, 20 ou 21 anos, o cérebro ainda está em construção, sobretudo nas áreas associadas ao controlo de impulsos e ao pensamento de longo prazo.
Ou seja, colocamos nas mãos de alguém um dispositivo capaz de provocar inveja, medo, euforia e humilhação no espaço de um minuto. Depois, fingimos surpresa quando há uma “queda”.
Quando olhamos para os números, o cenário adensa-se. Um estudo de 2023, associado ao gabinete do Cirurgião-Geral dos EUA, relacionou o uso intensivo de redes sociais com níveis mais elevados de ansiedade e depressão em adolescentes e jovens adultos. Algumas plataformas, em vez de protegerem, acabavam por abrir canais diretos para bullying, humilhação do corpo e padrões de comportamento aditivo.
Pense num jovem de 20 anos que publica uma selfie e não chega ao “número certo” de gostos. Ou numa pessoa de 22 anos cujas fotografias privadas são partilhadas num grupo de conversa. Ou numa rapariga de 19 anos que passa cinco horas por dia a consumir conteúdo que lhe sussurra: “Estás atrasada. Os outros já vão à tua frente.”
Isto não são histórias raras de terror. São terças-feiras normais. E os algoritmos não têm empatia: só querem que fique.
Há aqui uma realidade simples e desconfortável: um cérebro ainda a terminar o seu desenvolvimento está a competir com sistemas de milhares de milhões concebidos para capturar atenção. Os jovens adultos podem votar, conduzir, em alguns países até beber álcool, e podem assinar um contrato de crédito à habitação. Mesmo assim, continuam a aprender a autorregular-se, a ganhar distância, a reconhecer o momento de dizer “chega”.
As redes sociais aproveitam essa curva de aprendizagem e “lubrificam-na” com picos de dopamina: mais um deslizar, mais uma notificação, mais um vídeo curto.
Quando se tem 19 anos, resistir a esse íman não é apenas difícil - é quase injusto esperar que seja fácil.
É por isso que há quem defenda que aumentar a idade mínima das redes sociais para 25 não é um exagero. É um atraso histórico.
Se as redes sociais só começassem aos 25, o que mudaria nas redes sociais e nos jovens adultos?
Imagine um mundo em que só fosse possível criar uma conta completa nas redes sociais ao fazer 25 anos. Antes disso, existiriam versões limitadas, pouco viciantes e fortemente moderadas: sem fluxo algorítmico, sem contagem pública de seguidores, sem “linchamentos” anónimos em massa.
Aos 25, a maioria das pessoas já saiu da escola, trabalhou, mudou de casa (ou, pelo menos, já chocou algumas vezes com a vida real). Já teve uma ou duas desilusões amorosas, um fracasso profissional, algumas vitórias que não precisaram de ser publicadas para “contarem”.
Esse tempo extra afastado da intensidade total das redes sociais poderia funcionar como um amortecedor psicológico: menos identidade moldada por gostos, mais enraizamento em amizades offline, mais prática a lidar com aborrecimento sem pegar imediatamente no telefone.
Quem fala com pessoas no fim dos vinte ou início dos trinta ouve, muitas vezes, uma confissão discreta: gostavam de não ter crescido online. Gostavam que as crises da adolescência não tivessem ficado registadas em histórias e publicações. Gostavam que a primeira relação séria não tivesse sido dissecada por centenas de espectadores silenciosos a deslizar o ecrã.
Uma jovem de 27 anos que entrevistei contou-me que, por vezes, vai ver publicações antigas no Facebook e sente um mal-estar físico. O drama, a exposição excessiva, a pesca desesperada de validação de pessoas que mal a conheciam. Aos 19, parecia normal. Aos 27, parece auto-sabotagem.
Todos conhecemos esse instante em que relêmos uma mensagem antiga e pensamos: “Mas porque é que eu publiquei isto?” Agora multiplique isso por toda uma adolescência.
Adiar o acesso irrestrito às redes sociais para os 25 não resolveria tudo por magia. Pessoas nos trinta também se viciam. Pessoas nos quarenta também publicam coisas embaraçosas. Mas há uma diferença entre cair em maus hábitos aos 35 e ter a personalidade esculpida por algoritmos dos 13 aos 23.
A meio dos vinte, o córtex pré-frontal - a zona do cérebro ligada ao julgamento e ao controlo de impulsos - está substancialmente mais maduro. É mais provável que alguém pare antes de publicar algo cruel, imprudente ou demasiado íntimo. E também é mais provável reconhecer como as plataformas tentam manipular comportamentos.
A verdade nua e crua: a maioria das pessoas de 19 anos acha que é imune à manipulação, e a maioria não é. Traçar a linha nos 25 não seria um castigo. Seria uma barreira de segurança.
Há ainda um efeito colateral que raramente se discute: a pegada digital. Aos 25, muita gente já percebe que recrutadores, colegas e até instituições podem pesquisar o seu nome. Ter menos “anos filmados” reduz o risco de erros impulsivos se tornarem permanentes - e isso protege oportunidades futuras sem impedir a socialização.
E, no contexto europeu, vale a pena lembrar que a regulação já está a apertar noutros pontos (transparência de publicidade, moderação e responsabilidade das plataformas). Uma conversa séria sobre limite etário e desenho menos aditivo não seria um salto no vazio: seria uma extensão lógica de uma preocupação pública crescente com segurança e saúde mental.
Como jovens adultos se podem proteger já, nas redes sociais
Enquanto legisladores discutem limites de idade, há uma estratégia de sobrevivência para quem já está online. O primeiro passo é desfazer a ilusão de que as redes sociais são “vida real”. Uma técnica prática é uma auditoria semanal: durante dez minutos, percorra o seu próprio fluxo e pergunte, conta a conta, “Sinto-me melhor ou pior depois de ver isto?”
Qualquer influenciador, amigo ou página que consistentemente o deixe ansioso, invejoso ou emocionalmente entorpecido vai para silêncio durante 30 dias. Sem drama, sem anúncio, apenas distância tranquila.
Depois vem o tempo: defina um teto concreto, como 45 minutos por dia de redes sociais, e marque-o no calendário como se fosse uma reunião. Esse pequeno atrito - ter de notar “já gastei o meu tempo” - é uma defesa básica contra o apelo do deslizar infinito.
Muitos jovens adultos sabem que as redes sociais lhes estão a mexer com a cabeça e, mesmo assim, sentem-se impotentes. Isso não significa fraqueza. Significa que estas plataformas foram desenhadas para ultrapassar força de vontade.
Armadilhas comuns? Dormir com o telemóvel ao lado da almofada. Ver notificações antes de sair da cama. Publicar no auge de uma emoção crua e passar horas a interpretar cada gosto ou comentário. Estes hábitos treinam o cérebro, discretamente, a procurar validação externa antes de conseguir calma interna.
Se escorregar, seja cuidadoso consigo. Isto foi construído para ganhar. O objetivo não é tornar-se um monge perfeito com um telemóvel antigo. O objetivo é criar distância suficiente para que a sua autoestima não fique refém de um ícone de aplicação.
“As redes sociais são como entregar um casino e um concurso de beleza a um cérebro ainda em obras”, disse-me um psicólogo clínico. “Ficamos chocados quando colapsa, mas o resultado já está embutido no desenho.”
- Manter o telemóvel fora do quarto
Carregue-o noutra divisão para proteger o sono e reduzir espirais noturnas. - Desativar notificações não essenciais
Silencie gostos, novos seguidores e sugestões para que o dia não seja cortado em micro-picos de dopamina. - Separar criação de consumo
Se precisar de publicar, entre, publique, responda a mensagens essenciais e saia sem deslizar pelo fluxo. - Ter um amigo offline para “conversa a sério”
Alguém a quem possa enviar mensagem ou telefonar antes de publicar algo emocional ou arriscado. - Agendar dias completos de desintoxicação
Um dia por semana sem aplicações sociais. Deixe o sistema nervoso reaprender o que é silêncio.
Uma pergunta mais difícil: que tipo de adultos estamos a tentar criar?
A discussão sobre restringir as redes sociais a maiores de 25 anos não é apenas política tecnológica. É sobre o tipo de vida interior que permitimos aos jovens adultos construir - ou perder. Uma geração que cresce sob observação constante aprende a representar, não a existir.
Se adiarmos o acesso total, oferecemos mais alguns anos sem câmara apontada. Mais oportunidades para errar sem carregar um rasto permanente. Mais espaço para descobrir o que se gosta quando ninguém está a ver.
Haverá quem diga que isto é proteção excessiva. Outros vão defender que é cuidado básico, como cintos de segurança ou limites de idade para álcool. Não existe resposta perfeita, mas o caminho atual já está a mostrar o preço.
Faça a si próprio esta pergunta: se as redes sociais tivessem sido lançadas, desde o início, apenas para maiores de 25, e alguém aparecesse hoje a propor abri-las totalmente a pessoas entre os 14 e os 21 anos - com tudo o que já sabemos sobre saúde mental, autoagressão, dependência e assédio - diríamos que sim?
Ou olharíamos para os dados, para as histórias de salas de aula, consultórios de terapeutas e urgências noturnas, e diríamos, em voz baixa, que não?
Talvez a pergunta real não seja se os jovens adultos conseguem lidar com as redes sociais de forma responsável. Talvez seja se nós, como sociedade, conseguimos lidar com o que acontece quando não conseguem.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Maturidade cerebral | O autocontrolo e o julgamento continuam a desenvolver-se até à metade dos vinte | Ajuda a perceber porque 25 é um limiar com significado, e não um número aleatório |
| Risco para a saúde mental | O uso intensivo está associado a ansiedade, depressão e padrões aditivos em jovens adultos | Incentiva uma distância crítica em relação aos hábitos diários nas redes sociais |
| Salvaguardas práticas | Limites, silenciar contas, dias de desintoxicação e apoio offline reduzem o impacto | Oferece passos concretos que podem ser aplicados já |
Perguntas frequentes
- Pergunta 1: Os 25 anos são uma idade “segura” comprovada cientificamente para as redes sociais?
- Pergunta 2: Uma regra de 25+ não limitaria a liberdade de expressão dos jovens adultos?
- Pergunta 3: A educação e a literacia digital não podem substituir limites de idade?
- Pergunta 4: E os jovens criadores que ganham a vida nas redes sociais antes dos 25?
- Pergunta 5: O que podem fazer pais e mentores se as restrições legais não mudarem?
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