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Se não vir este logótipo no seu cartão bancário, é um grande problema.

Mulher preocupada a tentar efetuar pagamento com cartão num café ao ar livre.

Uma indicação quase invisível no seu cartão bancário.

Há já várias décadas que o cartão bancário faz parte da rotina em França. De tão habitual, muita gente deixou de reparar em pequenos pormenores impressos no plástico - como os logótipos Visa, Mastercard ou CB. Ainda assim, esses “badges” dizem muito sobre quem controla as infra-estruturas de pagamento, um tema que a eurodeputada Aurore Lalucq (presidente da Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu) voltou a colocar no centro do debate, num momento de tensão geopolítica com os Estados Unidos de Donald Trump.

Aurore Lalucq, cartões bancários e soberania: a prioridade ao CB

A eurodeputada, ligada ao partido Praça Pública, defende que os bancos franceses passem a dar primazia ao sistema Cartes bancaires (CB). Trata-se de uma rede francesa que agrega bancos nacionais sujeitos ao direito francês e europeu - e que, por isso, compete directamente com as redes norte-americanas Visa e Mastercard.

Uma das críticas centrais prende-se com os custos cobrados nas transacções realizadas na Europa por estes dois gigantes. As taxas situam-se, segundo a própria, entre 0,05% e 0,15%: valores quase imperceptíveis quando vistos operação a operação, mas que, devido ao enorme volume de pagamentos, representam montantes muito elevados a sair do espaço europeu.

“Criar um Airbus dos sistemas de pagamento”

Lalucq sublinha a importância do co-badging: na prática, um cartão com dupla marca - CB/Visa ou CB/Mastercard - permite que a França continue a encaminhar a maioria dos pagamentos domésticos pela sua própria rede. O problema, alerta, é que a crescente popularidade de cartões “apenas Visa” ou “apenas Mastercard” aumenta a dependência europeia de actores externos.

A eurodeputada acrescenta ainda que Visa e Mastercard podem, a qualquer momento, optar por subir tarifas, reforçando o argumento de soberania e de segurança. Na sua leitura, a Europa não deve ficar exposta à possibilidade de decisões políticas ou económicas vindas de fora - incluindo a hipótese de pressão ou bloqueio por parte da administração norte-americana.

Numa visão mais ampla, a presidente da Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários defende a criação de um verdadeiro “Airbus dos sistemas de pagamento”, capaz de oferecer uma alternativa europeia que venha, na prática, substituir Visa e Mastercard. Para chegar lá, considera essencial assegurar a interoperabilidade entre sistemas já existentes a nível nacional, com o objectivo de “pagar europeu na Europa”.

Porque é que isto ainda não avançou? O impasse do EPI

De acordo com a BFM, a União Europeia tenta há mais de dez anos construir uma rede própria através da Iniciativa Europeia de Pagamentos (EPI). No entanto, a fragmentação dos sistemas bancários nacionais, somada a divergências entre grandes bancos, tem travado um projecto considerado estratégico.

O que está em causa para consumidores e comerciantes

Para quem paga no dia-a-dia, estas escolhas de rede raramente são visíveis: o pagamento “funciona” e isso basta. Mas, para comerciantes e prestadores de serviços, a arquitectura por detrás do cartão influencia custos, condições contratuais e até a margem de negociação com intermediários. Uma maior utilização de redes europeias pode, em teoria, reduzir dependências e reforçar a capacidade de decisão regulatória dentro do mercado interno.

Interoperabilidade e futuro: do cartão ao euro digital

A discussão sobre sistemas de pagamento cruza-se também com a modernização das infra-estruturas europeias, incluindo iniciativas de pagamentos instantâneos e o debate em torno de soluções públicas complementares, como o euro digital. Mesmo sem substituir os cartões no curto prazo, estes projectos podem criar redundância, resiliência e opções adicionais - precisamente os elementos que sustentam o argumento de soberania defendido por Aurore Lalucq.

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