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Medicamento anti-obesidade: esta aquisição da Pfizer abala a grande indústria farmacêutica.

Mulher médica em bata branca apresenta dados com modelo molecular e medicamentos num escritório moderno.

A Pfizer saiu vencedora: a farmacêutica norte-americana vai adquirir a Metsera, uma empresa focada em novas gerações de tratamentos contra a obesidade, para frustração da Novo Nordisk.

A operação deverá ficar formalmente concluída após a assembleia-geral da Metsera, marcada para 13 de novembro. A partir daí, fecha-se um processo que se transformou numa autêntica novela. A Pfizer estava convencida de ter o acordo encaminhado desde setembro, até que a Novo Nordisk - líder mundial dos medicamentos anti-obesidade com o Ozempic e o Wegovy - avançou com uma proposta inesperada. A empresa dinamarquesa ainda subiu a parada por duas vezes, chegando a colocar em cima da mesa quase 10 mil milhões de dólares.

No entanto, o ataque não resultou. De acordo com a Metsera, a proposta da Novo Nordisk incluía “riscos regulamentares inaceitáveis”, uma vez que a autoridade norte-americana da concorrência terá indicado de forma clara que uma concentração desta natureza levantaria obstáculos. Apesar de durante muito tempo a oferta ter sido considerada mais vantajosa, a Novo Nordisk acabou por desistir.

Já a Pfizer reviu os termos, garantiu o financiamento e, sobretudo, assegurou um desfecho rápido - um fator decisivo para o conselho de administração da Metsera, que pretendia evitar um prolongamento judicial desgastante. Com este negócio, a empresa que ficou associada à criação de uma vacina contra a Covid-19 dá um passo forte: fundada em 2022, a Metsera já é um dos nomes mais cobiçados na nova vaga de terapias contra a obesidade.

GLP-1 e a explosão do mercado dos tratamentos de emagrecimento

A dimensão do investimento tem uma explicação direta. O mercado global dos tratamentos de emagrecimento, hoje dominado pelos GLP-1 - uma família de hormonas que ajuda a reduzir o apetite e a regular a glicemia -, está a transformar-se num dos segmentos mais rentáveis de sempre na indústria farmacêutica. Algumas previsões apontam para um setor de 150 mil milhões de dólares dentro da próxima década, algo que seria impensável há apenas cinco anos.

Depois de um primeiro revés nesta área, a Pfizer não quer voltar a ficar para trás. A compra da Metsera dá-lhe uma segunda oportunidade, desta vez com um portefólio já bastante avançado: um GLP-1 injetável que está a evoluir para um regime mensal, além de uma molécula inspirada na amilina - uma hormona produzida naturalmente pelo pâncreas - que já demonstra um potencial robusto. A isto somam-se vários candidatos orais ainda em desenvolvimento, pensados para abrir caminho a uma geração de medicamentos consideravelmente mais prática para os doentes.

A obesidade é hoje encarada como uma prioridade de saúde pública, estando associada a mais de 200 doenças. A leitura estratégica da Pfizer é clara: posicionar-se já nesta vaga, antes de Eli Lilly e da Novo Nordisk consolidarem o mercado de forma difícil de contrariar.

Do lado regulatório, a mensagem deixada por este processo é igualmente relevante: quanto mais dominante for a posição de uma empresa nos medicamentos anti-obesidade (incluindo GLP-1), maior será o escrutínio das autoridades da concorrência - e esse risco pode pesar tanto quanto o preço numa decisão de venda.

Há ainda um fator prático que tende a ganhar importância à medida que o mercado cresce: o acesso. Entre disponibilidade, conveniência de administração (injetável versus oral) e capacidade de produção, a vantagem competitiva pode vir tanto da inovação clínica como da execução industrial - e é precisamente nesse equilíbrio que a Metsera se tornou um ativo tão disputado.

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