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Descoberto sob a Antártida por este avião, tem 100 km e pode contribuir de forma surpreendente para os estudos do clima.

Homem em casaco laranja a estudar mapas e radar num laboratório com vista para paisagem gelada.

Um sobrevoo científico aparentemente banal sobre a capa de gelo da Antártida acabou por tropeçar num alvo improvável: algo colossal, mudo e invisível, enterrado a quilómetros de profundidade.

Durante missões de investigação na Antártida Ocidental, sensores instalados num avião assinalaram uma anomalia na gravidade (anomalia gravítica). Pouco tempo depois, um detalhe geológico observado longe dali - blocos de granito rosa encontrados em montanhas isoladas - ganhou uma nova explicação. Ao juntar estes dois fios, os investigadores perceberam que havia um enorme corpo rochoso escondido sob o gelo, com implicações directas para a forma como projectamos o futuro do nível do mar.

Um “Mont Blanc ao contrário” sob o glaciar Pine Island

Os cientistas delinearam um maciço granítico com cerca de 100 km de comprimento e aproximadamente 7 km de espessura, totalmente soterrado sob a capa de gelo da Antártida Ocidental. A estrutura encontra-se por baixo do glaciar Pine Island, uma das zonas mais vigiadas e mais preocupantes do planeta devido à rapidez com que perde massa.

Na prática, é como uma montanha invertida e escondida: não se vê à superfície, mas condiciona de forma decisiva a mecânica do gelo que a cobre.

A identificação foi possível graças a medições gravimétricas de elevada precisão obtidas em voo pelo British Antarctic Survey. Variações mínimas na massa da crosta terrestre alteram de forma subtil a atracção gravítica sentida pela aeronave. Embora a diferença seja quase imperceptível para quem está a bordo, instrumentos extremamente sensíveis registam-na com grande rigor.

Quando estes registos foram cruzados com observações geológicas recolhidas no terreno, o cenário começou a encaixar: as características estimadas do corpo enterrado combinavam com amostras de granito observadas em montanhas próximas, muito acima da capa de gelo.

As pistas deixadas pelo granito rosa nas montanhas Hudson

Durante muitos anos, os geólogos ficaram intrigados com a presença de granito rosa disperso nas montanhas Hudson. Aquelas rochas contrastavam com o enquadramento vulcânico local: apareciam isoladas, em cotas elevadas, e não pareciam ligar-se a nenhuma estrutura rochosa exposta nas imediações.

Em laboratório, cristais microscópicos presentes nessas amostras permitiram datar a sua formação em cerca de 175 milhões de anos, no Jurássico - um período em que a Antártida integrava o supercontinente Gondwana e em que dinossauros percorriam áreas que hoje estão cobertas por gelo.

Essa idade coincidiu com modelos geológicos que já apontavam para a existência de um antigo corpo granítico enterrado na mesma região. Ao combinar idade, assinatura química e localização, os investigadores concluíram que aqueles blocos tinham sido arrancados do maciço granítico subglacial e depois transportados pela dinâmica do gelo até ficarem depositados nos cumes.

Cada bloco funciona como um arquivo geológico: regista por onde o gelo passou, o que erodiu e como reconfigurou a Antártida ao longo de dezenas de milhares de anos.

Glaciares: grandes máquinas de escavação do passado

Um glaciar não é um bloco imóvel: move-se lentamente, como um rio sólido, e nesse percurso arrasta detritos e fragmentos rochosos. Esse desgaste contínuo chama-se erosão glaciar e actua como uma ferramenta natural de enorme potência.

No caso do Pine Island, quando o glaciar era mais espesso - por volta do último máximo glacial, há cerca de 20 000 anos - a base do gelo contactava e raspava directamente o topo do maciço de granito. Partes da rocha foram destacadas, incorporadas no gelo e deslocadas a grandes distâncias.

Com o aquecimento do clima e o recuo do glaciar, alguns desses blocos acabaram “abandonados” em cristas e elevações vizinhas. Hoje, os investigadores conseguem recolhê-los no terreno, com equipamento simples, sem nunca verem a rocha-mãe, que permanece soterrada sob quilómetros de gelo.

  • O gelo arranca fragmentos do substrato rochoso.
  • Os blocos seguem viagem no interior do glaciar ou à sua superfície.
  • Quando o gelo derrete ou recua, as rochas ficam depositadas no local.
  • Estes materiais, conhecidos como errático glaciar, ajudam a identificar a sua origem e o trajecto do gelo.

Porque é que este maciço granítico é decisivo para o clima

O glaciar Pine Island é uma das regiões que mais rapidamente perde gelo na Antártida Ocidental. A aceleração do seu escoamento é motivo de alarme porque drena volumes muito grandes para o mar de Amundsen, contribuindo directamente para a subida do nível do mar.

A geologia sob a capa de gelo é um factor de controlo essencial: bases rugosas, montanhosas ou com relevos acentuados tendem a dificultar o fluxo; por outro lado, superfícies mais suaves ou cobertas por sedimentos permitem um deslizamento mais rápido, sobretudo quando a água de fusão actua como lubrificante na interface entre gelo e rocha.

Saber a forma e a natureza da rocha sob o glaciar é determinante para antecipar se o Pine Island vai acelerar, estabilizar ou entrar em colapso nas próximas décadas.

O maciço de granito agora caracterizado acrescenta um obstáculo relevante no “pavimento” do glaciar e interfere em vários processos, como se resume a seguir:

Factor Influência do maciço granítico
Velocidade do gelo Zonas mais elevadas e abrasivas podem travar o escoamento local
Percursos da água de fusão O relevo subglacial condiciona e canaliza a água sob o gelo
Estabilidade da frente glaciar Elevações rochosas podem ancorar temporariamente o glaciar

Estes dados alimentam modelos numéricos usados para simular a evolução da Antártida em diferentes cenários de aquecimento global. Sem uma boa descrição da base geológica, as estimativas de subida do nível do mar ficam com incertezas muito superiores.

A investigação que cruza aviões, algoritmos e cristais (e a Antártida enterrada)

A descoberta do “gigante de granito” resulta de uma abordagem multidisciplinar. De um lado, a geofísica transforma medições de gravidade e magnetismo recolhidas por aeronaves em mapas do subsolo. Do outro, a geologia analisa em laboratório minerais minúsculos presentes em rochas transportadas pelo gelo.

Os modelos tridimensionais construídos a partir dos dados de voo permitem inferir volumes, geometrias e densidades anómalas em profundidade. Em paralelo, a datação radiométrica de cristais - como os zircões - fornece a idade da rocha original e pistas sobre a sua história térmica.

Ao combinar estes elementos, os investigadores reconstituem uma “Antártida invisível”: identificam batólitos graníticos antigos, cadeias montanhosas soterradas e vales profundos ocultos sob vários quilómetros de gelo.

Um aspecto adicional que tem ganho importância é a integração com observações remotas modernas: radar de penetração no gelo, altimetria por satélite e séries temporais de velocidade do gelo. Ao cruzar estas camadas de informação, torna-se possível ligar o que está a acontecer hoje à superfície (aceleração, afinamento, fracturação) às condições físicas que existem por baixo.

Antártida e o futuro das cidades costeiras (incluindo a costa portuguesa)

Perceber esta geologia subglacial vai muito além da curiosidade científica. O comportamento do Pine Island e de outros glaciares instáveis tem peso no risco enfrentado por cidades costeiras, infra-estruturas portuárias, estuários e zonas baixas em todo o mundo.

Se o escoamento do gelo se intensificar, alguns cenários apontam para subidas do nível médio do mar que podem ultrapassar 1 m até ao fim do século, sobretudo quando combinadas com tempestades mais energéticas e marés extremas. Pequenas ilhas e deltas densamente povoados tendem a sentir esses efeitos mais cedo e com menor margem de adaptação.

Para Portugal, embora a contribuição de um glaciar remoto pareça abstracta, o impacto é concreto: centímetros adicionais podem agravar episódios de galgamento costeiro, erosão de praias e intrusão salina em estuários. Zonas como o litoral arenoso, áreas baixas junto a sistemas lagunares e o estuário do Tejo tornam-se mais vulneráveis quando a linha de base (o nível do mar) sobe, mesmo antes de contabilizar o efeito de tempestades.

Ao melhorar a “física do terreno” dentro dos modelos, descobertas como esta ajudam a afinar intervalos de risco e a suportar decisões sobre planeamento costeiro, protecções, seguros e, em casos extremos, estratégias de realojamento gradual.

Termos-chave para interpretar a descoberta

Há dois conceitos que aparecem repetidamente neste tipo de estudo e que ajudam a ler os resultados:

Erosão glaciar: processo pelo qual o gelo em movimento desgasta e escava a rocha subjacente. Fragmentos ficam presos na base do glaciar, funcionando como uma lixa de escala continental. Ao longo do tempo, esta acção abre vales em U, fiordes e bacias profundas.

Errático glaciar: designação dada a blocos de rocha transportados pelo gelo para locais onde a geologia local é diferente. Por serem “estranhos” ao substrato em que aparecem, são excelentes marcadores do percurso e da história de transporte do glaciar.

Cenários futuros e riscos associados

Com o maciço granítico incorporado nos modelos, os investigadores testam diferentes trajectórias de aquecimento oceânico e atmosférico. Em algumas simulações, a elevação rochosa atrasa temporariamente o afinamento do Pine Island; noutras, a água mais quente que entra sob a plataforma de gelo costeira contorna o obstáculo e acaba por reforçar o escoamento mais adiante.

O objectivo não é obter uma resposta única, mas reduzir o risco de surpresa. Um dos temas em análise é a possibilidade de surgirem pontos de viragem, em que uma alteração relativamente pequena (na temperatura, na circulação oceânica ou na posição da linha de contacto com o fundo) desencadeia uma perda de gelo rápida e difícil de inverter.

Em paralelo, as equipas avaliam efeitos combinados - fusão à superfície, episódios de chuva em vez de neve e intrusão de água quente na base. Mesmo mudanças moderadas em vários factores, a acontecerem em simultâneo, podem amplificar a velocidade de escoamento do gelo.

À primeira vista, esta descoberta parece distante, escondida num continente quase inacessível. No entanto, a ligação é directa: o destino de um glaciar como o Pine Island traduz-se, no fim da cadeia, em mais água - centímetros ou decímetros - a acumular-se em praias, estuários e zonas costeiras onde vivem hoje milhões de pessoas.

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