Uma intensa emissão de raios X, originada há cerca de 8 mil milhões de anos, pode constituir a primeira evidência inequívoca de uma anã branca a ser despedaçada por um buraco negro.
O trabalho, coordenado por Dongyue Li e Wenda Zhang, da Academia Chinesa de Ciências, classifica o fenómeno como “sem precedentes”. Segundo a equipa, o clarão súbito - entre as explosões de raios X mais luminosas alguma vez registadas - encaixa melhor num cenário de disrupção por marés: uma anã branca a ser rasgada pela gravidade extrema de um objeto particularmente esquivo no Universo, um buraco negro de massa intermédia.
“As nossas simulações computacionais indicam que a combinação das forças de maré de um buraco negro de massa intermédia com a densidade extrema de uma anã branca consegue gerar energias de jato e escalas temporais de evolução altamente compatíveis com os dados observacionais”, afirma Jinhong Chen, astrofísico da Universidade de Hong Kong e coautor principal do estudo.
O que é uma anã branca - e porque é tão difícil vê-la ser destruída
As anãs brancas estão entre os objetos mais densos conhecidos no Universo, ficando apenas atrás das estrelas de neutrões e dos buracos negros. Formam-se quando estrelas com até cerca de oito vezes a massa do Sol chegam ao fim da sua evolução e expulsam as camadas externas, deixando um núcleo compacto com aproximadamente o tamanho da Terra, mas com até 1,4 vezes a massa do Sol.
Essa compactação extrema implica uma consequência importante: apenas buracos negros dentro de uma faixa de massas muito específica conseguem despedaçar uma anã branca de forma visível num evento de disrupção por marés. Buracos negros de massa estelar tenderiam a produzir clarões menos energéticos e de duração mais curta. Já a maioria dos buracos negros supermassivos engoliria a anã branca praticamente por completo antes de ocorrer uma disrupção observável.
Buraco negro de massa intermédia: o “ponto ideal” entre extremos
Os buracos negros de massa intermédia, com massas entre centenas e dezenas de milhares de vezes a massa do Sol, situam-se precisamente nesse “ponto ideal”. Ainda assim, até agora não existiam clarões que os astrónomos conseguissem associar com confiança a um encontro entre uma anã branca e um buraco negro de massa intermédia.
EP250702a: o sinal que mudou o cenário
A situação alterou-se quando a Sonda Einstein registou, em julho de 2025, um clarão de raios X extremamente brilhante proveniente de uma galáxia distante. O evento, designado EP250702a, subiu rapidamente até um pico muito intenso e depois começou a perder brilho, enquanto vários instrumentos acompanhavam a sua evolução. Aproximadamente um dia após a deteção dos raios X, o Telescópio Espacial de Raios Gama Fermi, da NASA, registou uma explosão de raios gama.
“Este sinal inicial em raios X é crucial”, explica Li. “Mostra-nos que isto não foi uma explosão de raios gama comum.”
Ao longo de cerca de 20 dias, o comportamento do fenómeno evoluiu de forma rápida: a luminosidade caiu do máximo em mais de cem mil vezes e o espectro passou de raios X duros para raios X suaves. Além disso, o evento ocorreu nas regiões periféricas da galáxia anfitriã - uma zona onde predominam estrelas mais antigas, em contraste com as estrelas jovens e muito massivas que costumam explodir como supernovas.
Porque a anã branca e o buraco negro de massa intermédia explicam melhor o fenómeno
Ao analisar cuidadosamente os dados do EP250702a em várias bandas do espetro eletromagnético e ao comparar diferentes mecanismos possíveis, a equipa concluiu que uma explicação se destacou claramente.
“O modelo anã branca–buraco negro de massa intermédia é o que explica de forma mais natural a evolução rápida e a saída de energia extrema”, afirma Lixin Dai, astrónomo da Universidade de Hong Kong.
Se esta interpretação for confirmada, o EP250702a poderá representar a primeira observação clara de uma anã branca a ser destruída desta forma - e, ao mesmo tempo, um novo método para “apanhar em flagrante” os buracos negros de massa intermédia, que continuam a ser dos objetos mais difíceis de identificar.
O que esta descoberta pode significar para a astronomia
Eventos deste tipo são valiosos porque funcionam como experiências naturais: ao observar como a luz varia no tempo e como a energia se distribui por diferentes comprimentos de onda, os investigadores conseguem inferir propriedades do buraco negro, como a sua massa, e compreender melhor como se formam e alimentam os jatos relativistas.
Além disso, deteções rápidas e coordenadas - com telescópios a observar desde os raios X até aos raios gama - tornam-se decisivas para distinguir entre cenários semelhantes. À medida que novas sondas e campanhas de seguimento forem refinadas, será mais provável encontrar outros episódios comparáveis, ajudando a preencher a lacuna observacional entre buracos negros de massa estelar e buracos negros supermassivos.
O estudo foi publicado no Boletim de Ciência.
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