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Passa a maior parte da vida em espaços fechados: o ar que respira aí é realmente saudável?

Mulher abre porta de varanda numa sala iluminada, com criança no chão e purificador de ar ligado.

Claro que a resposta é não - caso contrário, nem sequer estaríamos a fazer a pergunta. A verdadeira questão é: o que é que estamos, afinal, a impor aos nossos pulmões quando passamos os dias fechados em casa?

O Homo sapiens transformou-se num ser de interiores. Em média, passamos quase todo o nosso tempo entre quatro paredes: cerca de 90%. Talvez um dia os arqueólogos nos baptizem Homo Domesticus; por agora, faz mais sentido olhar para o tema que realmente interessa: a poluição das nossas casas.

Poluição das nossas casas: o que entra de fora e o que nasce cá dentro

Uma habitação, seja qual for o seu tipo, não é uma fortaleza estanque. Poluentes vindos do exterior - partículas finas, ozono, pólenes, óxidos de azoto, entre outros - conseguem entrar. Ao mesmo tempo, a própria casa funciona como fonte de contaminação.

Em França, o assunto começou a ganhar visibilidade no debate público no início dos anos 2000 e, desde então, passou a ser reconhecido pelas autoridades sanitárias como um problema de saúde pública. Foi uma tomada de consciência tardia, sustentada por muitos trabalhos científicos, incluindo uma síntese muito recente publicada a 10 de Dezembro na revista New Contaminants. Está preparado para perceber o que respira todos os dias sem se aperceber?

A sua casa: um ambiente fechado e difícil de respirar (poluição interior)

Dentro do ar doméstico encontra-se um conjunto variado de substâncias, muitas vezes em simultâneo: poluentes orgânicos persistentes, perturbadores endócrinos, resíduos voláteis de antibióticos, microplásticos e uma série de compostos ainda pouco caracterizados, designados na toxicologia como novos poluentes.

Em grande parte, estes compostos provêm dos produtos usados no dia a dia - como champôs, protectores solares, plásticos, tintas, alcatifas, brinquedos ou equipamentos electrónicos. Ao longo do tempo, libertam-se para o ar, acumulam-se no pó e depositam-se em superfícies.

Ventilação insuficiente e normas energéticas: quando as casas “eficientes” pioram a poluição interior

O problema agrava-se porque, em muitos casos, as casas são mal ventiladas e o ar circula pouco. De forma algo paradoxal, os edifícios mais recentes tendem a estar entre os piores, precisamente por serem concebidos para ficar o mais isolados possível do exterior, em linha com normas energéticas e metas de eficiência.

Ao reduzir a ventilação natural, estes edifícios favorecem a estagnação dos poluentes em vez da sua dispersão. Assim, substâncias tóxicas podem permanecer durante períodos muito longos no interior, levando a uma exposição crónica das pessoas que vivem nesses espaços, mesmo quando são promovidos como “ecológicos”.

“Pode ser mais grave do que lá fora”: quem está mais vulnerável

Segundo Wei Du, co-autor do estudo, “em muitos edifícios, a poluição interior pode ser mais severa do que aquela que medimos no exterior, o que é particularmente preocupante para as crianças e para os idosos”.

Há ainda uma diferença importante entre os dois contextos: a poluição ao ar livre pode, em certas condições, ser diluída pelo vento ou pela chuva - o que não acontece da mesma forma dentro das habitações.

Como entram no corpo - e como podem tornar-se ainda mais tóxicos

Estas substâncias não chegam até nós por uma única via. Podemos expor-nos através da ingestão de pó, da inalação do ar e, em alguns casos, também por passagem através da pele (contaminação transdérmica).

Para complicar, no interior de espaços fechados estes compostos podem sofrer transformações químicas sob a acção de diferentes oxidantes e originar, por vezes, substâncias ainda mais tóxicas do que as originais. E há um problema adicional: praticamente não existe histórico nem evidência suficiente para compreender bem estas reacções em ambiente doméstico, que continuam a ser uma das grandes incógnitas da toxicologia contemporânea.

Uma síntese global - e por isso ainda mais relevante

Este trabalho não é um estudo centrado num único país; trata-se de uma síntese global da investigação existente, o que, segundo os autores, a torna ainda mais pertinente.

Mesmo quando a qualidade do ar é classificada como aceitável (como se refere no contexto francês), essa avaliação é relativa: os critérios actuais continuam focados num conjunto limitado de poluentes e têm dificuldade em incorporar os contaminantes emergentes identificados por esta linha de investigação. Para Bo Pan, outro co-autor, é necessário “considerar estes espaços como uma frente maior no combate à poluição”.

Fica, por isso, a pergunta política e regulatória: será que as entidades públicas conseguirão, um dia, distinguir claramente entre aceitável e inofensivo? Segundo o site do Observatório da Qualidade dos Ambientes Interiores, esta confusão tem um custo estimado de 19 mil milhões de euros por ano.

O que pode fazer já em casa (sem esperar por novas regras)

Embora muitas decisões dependam de normas e fiscalização, há medidas práticas que ajudam a reduzir a carga de poluição interior: arejar diariamente (sobretudo após cozinhar, tomar banho ou limpar), controlar fontes de humidade, aspirar com filtros eficazes para reduzir pó fino e preferir materiais e produtos com baixas emissões (por exemplo, tintas e colas com baixo teor de compostos orgânicos voláteis).

Também faz sentido encarar a casa como um “ecossistema químico”: quanto mais produtos perfumados, sprays, plásticos aquecidos e combinações de limpeza agressivas forem introduzidos, maior é a probabilidade de aumentar a mistura de novos poluentes, incluindo aqueles que ainda não são bem monitorizados.

Um desafio também para Portugal e para a Europa

Em Portugal, tal como noutros países europeus, o impulso para edifícios energeticamente eficientes é indispensável - mas deve caminhar lado a lado com soluções de ventilação adequada e com uma monitorização mais abrangente da poluição interior. A evolução das recomendações precisa de acompanhar a ciência, sobretudo quando os contaminantes emergentes demonstram que a noção de “ar aceitável” pode esconder riscos reais em ambientes fechados.

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