Dizem que a casa é onde mora o coração. Para Katie McCrory, essa ideia não é apenas um lugar-comum: como responsável pela área Vida em Casa na sede mundial da IKEA, tem passado anos a estudar o que significa, na prática, sentir-se verdadeiramente em casa.
Desde 2017, McCrory lidera o Relatório IKEA Vida em Casa, um projecto anual de investigação. “Estar tão perto de estudos que revelam como é - e, mais importante ainda, como se sente - a vida em casa para pessoas em todo o mundo… acho que isso desbloqueou algo em mim”, conta.
A investigadora e narradora, hoje com 42 anos e mãe de duas crianças, diz que compreender aquilo que procuramos quando falamos de “sentirmo-nos mais em casa” transformou por completo a forma como pensa sobre criar um lar. Esse contacto com a investigação levou-a também a olhar para dentro: o que precisa, o que deseja e o que aprendeu com os diferentes lugares onde viveu e a que chamou casa ao longo do caminho.
A certa altura, começou a revisitar as próprias experiências e a identificar como encontrara soluções no seu modo de viver - mesmo em fases em que não conseguia alterar os aspectos práticos do espaço - e, ainda assim, conseguia sentir-se mais “em casa”.
Com acesso a “este corpo de investigação incrível que demonstra a paisagem emocional do lar”, sentiu vontade de juntar as peças e partilhar essas ideias com mais pessoas. “Parecia uma vocação”, afirma. “A ideia não me largava.”
Dessa urgência nasceu o seu primeiro livro, Onde Está o Coração, no qual usa a sua experiência para ajudar cada pessoa a sentir-se mais em casa no lugar onde vive.
Rituais em casa segundo Katie McCrory: por que importam e como fortalecer a sua rotina de bem-estar
McCrory defende que os rituais fazem diferença na forma como vivemos o dia-a-dia e na maneira como cuidamos de nós. E sublinha que um ritual não é o mesmo que uma rotina: tem uma estrutura própria, com três partes essenciais.
1) Propósito claro
“Um ritual tem três partes”, explica McCrory. “A primeira é que tem de ter um propósito claro.”
É precisamente isso que o distingue de uma rotina: o ritual obriga-nos a perguntar porquê. Porquê fazemos isto? Para que serve? O que estamos a tentar alimentar ou proteger? Essa reflexão ajuda a perceber a importância do acto - e, sobretudo, a intenção que está por trás dele.
Um exercício que McCrory gosta de propor é simples, mas poderoso: imagine que tem 24 horas em casa, sem qualquer interrupção e sem nada a disputar a sua atenção. O que faria?
Segundo ela, é um convite para fantasiar: “O que faria se tivesse 24 horas de tempo puro para mim?” A partir daí, a motivação começa a clarificar-se - surgem coisas que deseja mesmo fazer. O passo seguinte é interrogá-las: “Porque quero fazer isso?” E, diz McCrory, é preciso fazer essa pergunta três vezes.
Esse processo de insistir no “porquê” permite sair do superficial e chegar ao propósito. Quando o encontra, ganha nitidez: “Isto é importante por esta razão; esta é a minha intenção; e é por isto que preciso de abrir tempo e espaço para isto.” Para McCrory, é assim que se chega ao propósito claro.
2) Comportamentos facilitadores
A segunda parte do ritual, diz, exige comportamentos facilitadores - ou seja, acções concretas que tornam o ritual possível e eficaz. “É preciso ser mesmo específico: ‘O que é que tenho de fazer para que isto seja um ritual e para que funcione?’”
Aqui, ela sugere considerar duas coisas.
Primeiro, escolher o que quer fazer e definir com precisão o que isso significa. Pode ser algo que lhe dá prazer - como ler na cama - ou pode ser uma rotina doméstica que já existe, mas que passa a ser encarada como ritual.
Em vez de pensar “tenho de acrescentar mais rotinas, tenho de acrescentar mais rituais”, McCrory recomenda olhar para o funcionamento real do dia: que hábitos já faz automaticamente - tomar o pequeno-almoço, vestir-se, até certas tarefas domésticas - e perguntar como pode reformular isso como ritual.
Uma das formas mais eficazes, diz, é envolver os cinco sentidos nessa actividade. Por exemplo, ao preparar-se para dormir: acender uma vela perfumada, usar iluminação ambiente enquanto desacelera, pôr música suave.
A ideia é: “Isto é algo que faço todos os dias sem pensar; como posso elevá-lo a um ritual?” Para ela, esse caminho tende a resultar mais do que deixar a actividade no modo “rotina banal”.
3) O ambiente certo e limites
A terceira parte é aquilo que torna a casa um suporte tão valioso: os rituais precisam do ambiente certo e de limites.
McCrory sublinha que o lar, quando bem pensado, está naturalmente orientado para as necessidades de um ritual, porque cruza autocuidado e auto-expressão. “A casa permite-nos ver-nos a nós próprios e é, também, um espaço seguro. No ideal, um santuário… por isso já existe muita estrutura, muitos limites e um ambiente propício para estes rituais.”
Uma estratégia prática, segundo ela, é criar zonas em casa. Pense com clareza no que quer fazer - talvez ioga ou meditação - e decida onde vai acontecer, procurando repetir sempre no mesmo local.
A recomendação é deixar tudo pronto nesse sítio: o tapete de ioga guardado ali, talvez um difusor ou uma vela perfumada, a música preparada. Isso reduz o atrito: torna mais fácil “entrar” no ritual quando chega àquele espaço. E tem outro efeito: funciona como lembrete visual de que “deve” esse ritual a si próprio todos os dias ou todas as semanas - um gatilho positivo, porque está à vista.
O outro ponto é reduzir distracções. McCrory sugere pensar no telemóvel e no tempo de ecrã, e em como isso pode estar a interromper aquilo que quer construir.
No fundo, diz ela, trata-se de cuidar de si. Quando fala de autocuidado e auto-expressão, está também a falar de auto-estima: nutrir-se é afirmar “eu valho este tempo, este espaço e a energia necessária para fazer estas coisas”. E, para McCrory, a casa é um lugar extraordinário para esse compromisso consigo.
Como tornar os rituais sustentáveis no dia-a-dia
Para que um ritual não fique apenas na intenção, ajuda começar pequeno e proteger a consistência: escolha um momento realista (por exemplo, 10 minutos antes de dormir) e defina um sinal de início - uma música específica, a mesma luz, o mesmo chá. Quando o início é claro, a mente transita com mais facilidade para o estado certo.
Também vale a pena ajustar expectativas à fase de vida: numa semana mais exigente, o ritual pode ser mais curto, mas não precisa desaparecer. Manter o propósito e o ambiente (mesmo que simplificados) preserva a identidade do ritual - e evita que ele seja engolido pela pressa ou pelo automático.
Rituais partilhados: quando a casa é vivida em conjunto
Se vive com outras pessoas, os limites e o ambiente certo podem exigir conversa e acordos simples: um horário sem ecrãs na sala, um canto reservado para leitura, ou um momento semanal em família que fortaleça o sentido de lar. Mesmo rituais individuais beneficiam quando são respeitados por quem partilha o espaço.
Ao integrar propósito claro, comportamentos facilitadores e o ambiente certo e limites, McCrory acredita que os rituais deixam de ser “mais uma tarefa” e passam a ser uma forma consistente de bem-estar - enraizada na vida real e apoiada pela casa onde o coração, afinal, quer ficar.
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