Durante mais de três anos, investigadoras, conservacionistas e milhares de voluntários recolheram dados para perceber onde, em França, o ouriço-cacheiro ainda encontra boas condições para sobreviver. O resultado foi um mapa à escala nacional que não só destaca zonas de maior presença, como também evidencia até que ponto este pequeno insectívoro está hoje ameaçado.
Vizinho espinhoso em dificuldades: o estado do ouriço-cacheiro
Para muitas pessoas, o ouriço é um animal simpático dos jardins. Mede cerca de 30 centímetros de comprimento, aproximadamente 15 centímetros de altura, raramente ultrapassa um quilo no início da hibernação e é inconfundível graças aos seus espinhos. Em França, tal como na Alemanha, vive tanto em meios rurais como em zonas periurbanas e jardins.
Ainda assim, a espécie enfrenta uma pressão crescente. A agricultura intensiva retira-lhe esconderijos e fontes de alimento. Os pesticidas fazem desaparecer os insectos. As estradas fragmentam os habitats e, muitas vezes, as deslocações nocturnas terminam sob os pneus de um carro. A isto somam-se acidentes com robots corta-relva e cortadores de relva mesmo junto às habitações.
Todos os anos a população de ouriços diminui - o novo mapa mostra onde os efectivos ainda parecem relativamente estáveis e onde os vazios se tornam maiores.
Estudo em grande escala: França conta os seus ouriços
Para compreender melhor a dimensão do problema, a associação ambiental France Nature Environnement lançou há alguns anos um projecto de âmbito nacional. A iniciativa chama-se “Opération Hérisson” e começou primeiro no departamento de Doubs, no leste do país. O que era uma experiência regional transformou-se num projecto para toda a França - e entretanto já se discute até uma perspectiva europeia.
O objectivo: reunir o maior número possível de registos de todas as regiões, para delimitar com mais precisão a presença da espécie e os seus habitats. Isto porque os ouriços são difíceis de observar directamente. São nocturnos, gostam de permanecer no sub-bosque e na erva alta, e são simplesmente pequenos. Quem apenas passeia de dia quase nunca os vê.
Como foram procurados: túneis, marcas de tinta e avistamentos ocasionais
O projecto aposta, por isso, em métodos simples, que também podem ser usados por não especialistas. Entre os mais comuns estiveram os chamados túneis para ouriços: túneis baixos de cartão ou plástico colocados no jardim. No centro coloca-se alimento e, à entrada e à saída, uma faixa com tinta não tóxica e papel. Quando um ouriço passa, deixa pegadas características.
- Túneis de jardim com alimento e tinta para registar pegadas
- Registos online de ouriços vivos - por exemplo no jardim ou no passeio
- Registo de animais atropelados nas bermas das estradas
- Observação prolongada de locais específicos ao longo de vários anos
Cada observação, fosse ela positiva ou trágica, foi integrada numa base de dados central. A partir daí, a equipa de investigação conseguiu perceber onde os ouriços ainda aparecem com relativa frequência, onde surgem apenas de forma esporádica e onde quase já não são encontrados.
O novo mapa de França: onde há mais hipóteses de encontrar um ouriço
A partir de milhares de registos foi criado um mapa detalhado, que mostra a distribuição dos animais por todo o país. Uma conclusão é clara: algumas regiões concentram muito mais observações do que outras.
Particularmente muitas notificações vieram de:
- Bourgogne–Franche-Comté
- Auvergne–Rhône-Alpes
- Île-de-France, incluindo a área metropolitana de Paris
- Hauts-de-France, no norte do país
Estas áreas são actualmente consideradas os principais focos de registos de ouriços. Combinam estruturas rurais, jardins, paisagens com sebes e extensas zonas habitadas - uma mistura que oferece ao ouriço condições relativamente favoráveis, desde que nem cada metro quadrado seja impermeabilizado.
Onde permanecem sebes, faixas de prado e jardins mais naturais, os ouriços conseguem manter-se - o mapa mostra isso em agrupamentos bem visíveis.
Ao mesmo tempo, há zonas no mapa onde os registos de ouriços continuam raros. Em parte, isso deve-se a habitats realmente empobrecidos, com muita monocultura e poucos refúgios. Noutra parte, é possível que simplesmente existam menos pessoas a comunicar observações, por exemplo em áreas pouco povoadas. O mapa permite ponderar ambos os factores.
Mais de 11.000 pessoas participam - ciência cidadã como oportunidade
A dimensão do projecto surpreende até os especialistas: mais de 11.000 pessoas diferentes já contribuíram com dados. Só em 2023, foram reunidas mais de 6.700 observações, distribuídas por todo o território francês.
A iniciativa mostra também como é grande o interesse da população pela fauna selvagem nativa. Muitos participantes criam uma ligação pessoal aos ouriços da sua zona, dão-lhes nomes ou instalam pequenos pontos de alimentação. Assim, um estudo aparentemente técnico transforma-se num projecto colectivo com forte componente emocional.
Primavera como melhor época de observação
A variação ao longo do ano tem um papel importante neste mapeamento. No inverno, os ouriços hibernam e os registos tornam-se escassos. Assim que as temperaturas sobem na primavera, acordam, procuram alimento e parceiros - e passam a ser vistos com muito maior frequência.
Por isso, a primavera e o início do verão são considerados a época principal para os registos. Quem estiver de férias em França e sair ao entardecer tem agora as melhores hipóteses de ver um ouriço à beira do caminho, por exemplo em zonas de casas de férias com jardins ou em caminhos rurais tranquilos.
Como cada pessoa pode ajudar - também a partir do espaço de língua alemã
A plataforma da France Nature Environnement continua aberta, e novos registos são expressamente bem-vindos. Quem vive em França, se desloca regularmente ao país ou lá passa férias com frequência pode inserir observações online. O essencial é indicar o local, a data e se o animal foi encontrado vivo ou morto.
Para os leitores do espaço de língua alemã, o projecto tem ainda uma segunda dimensão: muitos dos problemas dos ouriços são semelhantes em toda a Europa Central. As conclusões obtidas em França podem ser facilmente adaptadas. Quem quiser tornar o seu jardim mais favorável aos ouriços pode apostar em medidas simples:
- Sebes e montes de folhas em vez de canteiros totalmente “arrumados”
- Aberturas na vedação do jardim para que os ouriços possam circular entre terrenos
- Cuidado ao usar robots corta-relva, sobretudo ao entardecer
- Não usar granulado anti-lesmas e reduzir ao máximo os produtos tóxicos no jardim
- Rampas de saída pouco inclinadas em lagos e piscinas
Quem deixa algumas zonas mais selvagens no próprio jardim cria precisamente as estruturas de que os ouriços precisam - em França como na Alemanha.
O que o mapa pode mudar a longo prazo
Os dados recolhidos fornecem uma base para influenciar decisões políticas e de planeamento. Os municípios podem, por exemplo, garantir que corredores verdes e sebes sejam preservados em novas zonas urbanizadas. Os projectos rodoviários podem ser complementados com passagens inferiores ou ecodutos, para que os pequenos mamíferos não tenham de atravessar sempre o asfalto.
Além disso, o mapa permite acompanhar tendências ao longo dos anos: se o número de registos diminuir continuamente em determinadas regiões, isso aponta para problemas crescentes - como mais tráfego, menos insectos ou maior impermeabilização do solo. Se os números aumentarem, isso pode indicar que as medidas de protecção ou uma maior sensibilização da população estão a produzir efeitos.
Porque são tão valiosos os projectos cidadãos para a vida selvagem
Projectos como o mapa francês do ouriço mostram como pode funcionar hoje um trabalho de conservação eficaz: a ciência fornece os métodos, e os cidadãos assumem grande parte da recolha de dados. Desta forma, criam-se conjuntos de dados que equipas profissionais, sozinhas, dificilmente conseguiriam reunir - nem em termos financeiros, nem humanos.
Ao mesmo tempo, a participação torna as pessoas mais atentas ao ambiente que as rodeia. Quem já encontrou uma cria de ouriço à beira da estrada ou viu pegadas num túnel de jardim passa a conduzir com mais cuidado, a cortar a relva com mais atenção e a falar com os vizinhos sobre cercas abertas e cantos mais naturais. O efeito vai muito além do próprio mapa.
Para o ouriço em França, este novo mapa torna-se assim uma ferramenta dupla: mostra onde este pequeno insectívoro ainda consegue sobreviver relativamente bem - e evidencia onde a política, os municípios e os particulares têm de agir para que este ícone espinhoso dos jardins não desapareça em silêncio.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário