À primeira vista, parece daqueles casos em que os números não deixam margem para dúvidas: um elétrico de 1360 cv a acumular recordes em série. E, de facto, o que o Mercedes-AMG GT XX fez merece destaque por si só.
O problema é que, quando se sai da ficha técnica e se olha para o relógio em provas de resistência, há um detalhe que muda tudo: o tempo em que o carro não anda. E foi precisamente aí que um Mercedes com mais de 40 anos acabou por ter uma vantagem inesperada.
Primeiro que tudo, há que celebrar o feito alcançado pelo Mercedes-AMG GT XX. Bateu 25 recordes, incluindo o de maior distância percorrida por um elétrico em 24 horas (5479 km), até ao menor tempo gasto numa potencial volta ao mundo: 40 075 km (equivalente à circunferência da Terra) em sete dias, 13 horas, 24 minutos e sete segundos.
São números que podem soar um pouco abstratos, mas este talvez impressione mais: o GT XX fez volta após volta no anel de velocidade de Nardò (12,6 km) a 300 km/h. Paragens? Só mesmo para carregar, literalmente, baterias a 850 kW - muito mais do que encontramos na nossa rede.
E os 300 km/h não se deveram a qualquer limitação do GT XX. Este dá mais de 360 km/h, de acordo com a AMG, graças à combinação dos 1000 kW (1360 cv) de potência e também do Cx de apenas 0,19 - menor que um Tesla Model S Plaid ou um Mercedes-Benz EQS.
Mas após várias simulações e cálculos, os engenheiros da AMG chegaram à velocidade de 300 km/h como a ideal para conjugar a velocidade em pista, consumo de energia e carregamentos de modo a garantir o menor tempo possível. E resultou: 25 recordes batidos. Mas…
Spoiler: o Mercedes-Benz 190 já tinha feito melhor em 1983
Parece mentira, mas é verdade. O “baby-Benz” esteve em Nardò há 42 anos num exercício muito parecido. Fez uma distância maior, 50 000 km, e pelo caminho somou uma série de recordes.
E nos recordes que consegui comparar diretamente - 25 000 km e 25 000 mi (milhas) -, foi bem mais rápido que o AMG GT XX.
Nas restantes distâncias, seria preciso extrapolar tempos e isso podia levar a contas enganadoras. Mas nos dois que dá para colocar lado a lado, a conclusão é cristalina:
É de ficar de queixo caído, não só pela diferença nos tempos e na velocidade média, como também pelo fosso enorme que existe entre as specs dos dois carros. De um lado, uma berlina relativamente modesta com motor de quatro cilindros e 185 cv a dar uma lição a um «monstro» elétrico com mais de 1360 cv. O 190 E 2.3-16 dava, de origem, 230 km/h, enquanto o GT XX anuncia mais de 360 km/h.
Mas contra factos não há argumentos. Os tempos são oficiais e certificados. Mas como é possível? Primeiro, para clarificar, talvez tenha reparado nos mais de 247 km/h de velocidade média do 190 E, apesar de eu ter dito que, de origem, ficava pelos 230 km/h.
A diferença explica-se facilmente: os Mercedes-Benz 190 usados receberam algumas alterações. Entre elas, a relação do diferencial e outras que mexeram com a aerodinâmica - a potência manteve-se nos 185 cv -, o que fez a velocidade máxima saltar dos 230 km/h para uns surpreendentes 265 km/h. Fique a saber tudo sobre esta prova de resistência do 190:
Agora, sim, podemos ir ao cerne da questão e torna-se simples perceber porque é que o 190 ficou à frente do GT XX neste exercício: o tempo perdido nos carregamentos. Mesmo com 850 kW de potência de carregamento, a super-berlina elétrica da AMG acabou por desperdiçar muito tempo a repor energia na bateria de 114 kWh.
E quanto tempo o GT XX perdeu a carregar? A Car and Driver pegou na calculadora e chegou a conclusões bastante elucidativas. Das mais de 182 horas necessárias para fazer as 25 000 milhas (40 233 km), a publicação norte-americana estima que 48,6 horas foram passadas a carregar - sim, mais de dois dias. Visto de outra forma, por cada hora a conduzir, foram precisos cerca de 22 minutos parados a carregar.
Não é preciso ser-se um génio para perceber que o 190 E 2.3-16 conseguia abastecer, trocar pneus e piloto em muito menos tempo. Apesar de o GT XX conseguir ser muito mais rápido em Nardò, ao perder tanto tempo a carregar a bateria, acaba por ser apenas uma questão de distância até o 190 E 2.3-16 ficar à frente.
Continua a ser um feito notável
Esta comparação improvável não tira mérito ao que o Mercedes-AMG GT XX alcançou. A realidade é esta: carregar uma bateria demora muito mais do que encher um depósito de combustível. Numa próxima tentativa, quem sabe, faça-se o mesmo exercício, mas a trocar baterias em vez de as carregar - fica a dica…
O objetivo destes recordes de distância sempre foi demonstrar a robustez de um modelo ou de uma tecnologia, e estes dois Mercedes, apesar de separados por mais de 40 anos, provaram-no sem discussão.
Em 1983, o “baby-Benz” percorreu 50 000 km para mostrar que era um Mercedes tão «duro» como qualquer outro e, em 2025, a AMG deu uma «volta à Terra» para provar que a sua tecnologia elétrica aguenta abuso prolongado sem - literalmente - derreter.
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