Ao depararem-se com isto, muitos tutores encolhem primeiro os ombros, mas depois ficam em silêncio a perguntar-se se esse roer constante de caules não estará, afinal, a esconder um problema gástrico sério. Centenas de milhares de animais exibem este comportamento, sobretudo na primavera. Onde fica a fronteira entre um “pastar” normal e um sinal de alerta que deve levar diretamente ao consultório veterinário?
Porque é que os cães comem relva com tanta frequência
Quem passeia com o seu companheiro de quatro patas por prados vê-o acontecer a toda a hora: a bola fica esquecida, enquanto ele se dedica, concentrado, a arrancar folhas de relva. Este comportamento é muito comum e, na esmagadora maioria dos casos, é completamente inofensivo.
Estimativas de clínicas veterinárias indicam que cerca de três quartos de todos os cães comem relva com regularidade - sem estarem doentes.
As razões por trás disto são várias e, muitas vezes, têm pouco ou nada a ver com uma doença aguda.
Instinto antigo: autolimpeza e “limpeza do estômago”
Mesmo que o cão de família moderno durma numa cama quente, continua a transportar nos genes a herança dos seus antepassados selvagens. Estes, durante a caça, não ingeriam apenas carne, mas também restos vegetais presentes no estômago das presas. Dessa forma, fibras mais grossas entravam naturalmente no aparelho digestivo.
A relva pode funcionar no estômago como uma espécie de “escova”. Alguns animais comem-na mais quando sentem ligeira náusea ou quando comeram algo que não lhes caiu bem. Os caules compridos irritam a mucosa gástrica, o que pode favorecer o reflexo de vómito. Há cães que parecem aproveitar exatamente isso: um reflexo inato para esvaziar o estômago.
Mais fibra para um intestino lento
Outro motivo é bem mais prosaico: as fibras alimentares. A ração pronta não cobre as necessidades de todos os animais da mesma forma. Um cão com um intestino mais preguiçoso pode procurar, por instinto, fibras adicionais. A relva fresca contém muita celulose, que estimula o transporte do bolo alimentar no intestino.
- A relva fornece fibras extra para a digestão
- ajuda a reter alguma água no intestino
- as fezes podem ficar mais volumosas e mais fáceis de expulsar
Quem observar no seu animal obstipação crónica ou fezes muito duras e, ao mesmo tempo, um aumento do apetite por relva, deve pedir que a composição da alimentação seja avaliada - muitas vezes basta ajustar a quantidade de fibras bem toleradas.
Tédio, alívio do stress e prazer simples
Nem todos os cães comem relva para cuidar do estômago; alguns simplesmente desfrutam de um “snack de relva” por diversão. Os caules frescos são sumarentos, têm um cheiro intenso e são interessantes de mastigar. Para muitos animais, trata-se apenas de uma experiência sensorial.
Especialmente os cães que passam muito tempo no jardim ou num quintal sem atividades acabam por transformar o comer relva num ritual contra o tédio. Isso organiza-lhes o tempo, acalma-os e distrai-os.
Roer relva pode ser, para alguns cães, o equivalente a mascar pastilha elástica para as pessoas: ter qualquer coisa para fazer e, ao mesmo tempo, saborear um pouco.
Se este comportamento surge sobretudo quando o cão não tem claramente mais nada para fazer, vale a pena olhar para a rotina diária: mais jogos de procura, mordedores, pequenas sessões de treino ou passeios com variedade costumam retirar bastante pressão ao problema.
Quando comer relva se torna um sinal de aviso
Por mais inofensivo que este comportamento pareça, há momentos claros em que os tutores devem manter-se muito atentos. Nesses casos, o comer relva não traduz uma simples mania, mas uma tentativa de aliviar dor ou mal-estar.
Fome súbita e intensa por relva
O cenário torna-se preocupante quando o padrão muda de forma evidente. Se antes o seu cão apenas levava de vez em quando uns caules à boca e, de repente, se atira nervosamente a qualquer relvado a toda a hora, isso é um sinal bastante claro.
Sinais de alerta típicos:
- come relva quase em pânico, sem fazer pausas
- arranca tufos inteiros, com terra, do solo
- fica nervoso, arqueja e anda inquieto de um lado para o outro
- interrompe a brincadeira para continuar a engolir relva
Este comportamento aponta muitas vezes para mal-estar no trato gastrointestinal. O cão tenta “abafar” a sensação desagradável ou provocar algum movimento no sistema digestivo.
Comer relva e vomitar – uma combinação perigosa
A situação torna-se especialmente delicada quando o vómito se repete depois de comer relva. Regurgitar uma vez, após comer demasiado depressa ou depois de um ataque de relva, ainda não é motivo de pânico. Mas se os episódios se acumularem, é preciso agir.
Vómitos repetidos associados a consumo intenso de relva podem indicar uma gastrite ou a presença de um corpo estranho no trato digestivo.
Entre as causas possíveis estão, por exemplo:
- gastrite (aguda ou crónica)
- corpos estranhos no estômago ou no intestino, como pedaços de osso, plástico ou partes de brinquedos
- aristas ou espigas engolidas, que ficam presas
- forte carga parasitária
- irritação provocada por medicamentos ou guloseimas inadequadas
Outros sinais associados podem incluir perda de apetite, deglutições repetidas, salivação, dorso arqueado, dor abdominal ao toque ou fezes escuras, com aspeto de alcatrão. Em todas estas situações, não há alternativa a uma avaliação veterinária rápida.
Como os tutores devem reagir
Ninguém precisa de entrar em pânico ao menor contacto com uma folha de relva. Ao mesmo tempo, uma observação atenta nunca faz mal. Com algumas medidas simples, é possível reduzir riscos e detetar precocemente eventuais problemas.
Escolher um ambiente seguro para o cão
Nem toda a relva é um “buffet de saladas” para cães. Muitas áreas são pulverizadas com produtos ou fertilizadas.
- Evite campos e jardins tratados recentemente
- preste atenção aos avisos das câmaras municipais ou dos jardineiros
- não deixe o seu cão comer junto a bermas de estrada muito sujas
Quem tiver jardim próprio deve evitar substâncias químicas agressivas ou, pelo menos, impedir o acesso do cão às áreas onde um produto tenha sido aplicado há pouco tempo.
Verificar a alimentação e ajustá-la, se necessário
Se o cão, em qualquer relvado, segue decididamente na direção do verde, a ração pode estar a fornecer poucas fibras ou demasiado pouco volume alimentar. Isto acontece sobretudo com alimentos secos muito energéticos, em que as porções costumam ser pequenas.
Perguntas úteis para o veterinário ou para um especialista em nutrição:
- O teor de fibra é adequado ao nível de atividade do cão?
- As fezes são regulares e com boa consistência?
- Há sinais de intolerância (flatulência, diarreia, fezes variáveis)?
Em muitos casos, chegam pequenos ajustes, como um pouco mais de alimento húmido de boa qualidade, legumes, uma alimentação específica para estômagos sensíveis ou suplementos recomendados pelo veterinário.
Mais atividade para combater frustração e tédio
Quem passa horas no jardim sem grande estímulo começa a inventar tarefas para si próprio. Comer relva é então apenas uma entre várias estratégias - a par de escavar, ladrar, verificar o vedante da vedação ou roer móveis.
Podem ajudar, por exemplo:
- dispensadores de comida e jogos de procura na relva
- sessões curtas de treino com comandos básicos
- pauzinhos para roer ou brinquedos recheados para momentos de calma
- passeios variados, em vez de repetir sempre o mesmo percurso
Quanto mais ocupado estiver o cérebro, menor costuma ser o interesse por comer relva sem objetivo.
Quando o veterinário é indispensável
Uma ida à clínica não deve ser adiada se ocorrer uma ou mais das situações seguintes:
| Sinal | Medida |
|---|---|
| comer relva de forma súbita e intensa durante horas | mostrar o animal ao veterinário no próprio dia |
| comer relva mais vómitos repetidos | marcar consulta com urgência; se houver apatia, recorrer ao serviço de urgência |
| fortes dores abdominais, postura encolhida | não dar comida e dirigir-se de imediato à clínica |
| sangue no vómito ou nas fezes | urgência, sem esperar |
| suspeita de corpo estranho (brinquedo, osso, lixo) | pedir avaliação imediata; não provocar o vómito |
Um diagnóstico precoce muitas vezes evita procedimentos mais pesados e reduz ao animal dores prolongadas.
Contextos úteis para o dia a dia do cão
Muitos tutores assustam-se quando o cão vomita após comer relva e os caules aparecem inteiros, envolvidos em espuma. O aspeto é inquietante, mas em alguns casos não é invulgar. Se, a seguir, o animal ficar visivelmente aliviado e voltar ao normal, o episódio pode ser observado e mantido sob vigilância. Se voltar a acontecer, é necessário aconselhamento especializado.
Também é interessante olhar para o temperamento do animal: cães mais nervosos e muito sensíveis tendem a fazer o estômago “trabalhar” mais sob stress. Neles, o aumento do consumo de relva surge por vezes depois de mudanças de casa, da chegada de um novo membro à família ou de alterações na rotina. Nestes casos, ajudam muitas vezes medidas para reduzir o stress, rotinas mais estáveis e mais períodos de descanso, e não apenas um ajuste da alimentação.
Quem observa o comportamento do cão com atenção ao longo do tempo reconhece depressa padrões individuais: alguns comem apenas rebentos jovens na primavera, outros procuram de propósito determinadas espécies de relva. Estas observações dão pistas valiosas aos veterinários, caso algo um dia corra mal. Assim, um comportamento aparentemente banal transforma-se num sinal importante, que os tutores podem aprender a interpretar - para encarar com mais tranquilidade o “comportamento de pastoreio” do seu companheiro.
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