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Nova rede a partir da estratosfera: Internet por drones desafia Starlink

Mulher numa cobertura no deserto, a controlar um drone e um dirigível branco voando no céu.

Milhões de pessoas continuam a navegar numa terra de ninguém digital - e agora uma camada de internet completamente nova no céu quer preencher essa falha.

Cerca de um quarto da humanidade ainda não tem acesso fiável à rede, apesar de já existirem dezenas de milhares de satélites a orbitar acima das nossas cabeças. Agora, é outra tecnologia que ganha terreno: plataformas na estratosfera, sob a forma de drones solares, dirigíveis e balões de alta tecnologia, deverão levar internet de banda larga barata a países inteiros - explorando assim uma fraqueza do Starlink e de serviços semelhantes.

Porque é que os satélites, apesar da Starlink, não eliminam as zonas sem cobertura

No papel, a visão da internet por satélite parece perfeita: milhares de pequenos satélites em órbita baixa, cobertura global e ligação rápida mesmo em zonas remotas. Na prática, porém, a distância digital continua enorme. Segundo um relatório da União Internacional de Telecomunicações das Nações Unidas, quase 2,2 mil milhões de pessoas ainda têm pouco ou nenhum acesso à internet.

Há vários motivos para isso:

  • Capacidade limitada por área: quando demasiados utilizadores numa grande cidade entram em linha através dos mesmos satélites, a largura de banda por pessoa cai.
  • Custos elevados: montar uma constelação completa de satélites em órbita baixa é extremamente caro e tecnicamente muito complexo.
  • Tarifários caros para o utilizador final: em muitos países emergentes e em desenvolvimento, os custos mensais de uma subscrição Starlink são simplesmente incomportáveis.

A lacuna não está apenas na cobertura, mas sobretudo no preço e na capacidade - e é precisamente aí que a estratosfera entra em cena.

Entre o solo e a órbita existe uma zona até agora pouco aproveitada: a estratosfera, a cerca de 18 a 25 quilómetros de altitude. É aí que está a subir uma nova geração de plataformas.

Internet da estratosfera: como funcionam as plataformas HAPS

O termo técnico é HAPS, sigla para plataformas de grande altitude. Não se trata de um único tipo de aparelho, mas sim de uma família inteira de aeronaves: drones solares, aviões não tripulados, dirigíveis de hélio ou balões de alta altitude. Não andam no espaço; “estacionam” em grande altitude sobre uma região.

A altitude de operação típica situa-se entre 18 e 25 quilómetros. Para comparação: os aviões comerciais voam normalmente entre 10 e 12 quilómetros, enquanto os satélites da Starlink estão a cerca de 500 quilómetros de altitude.

Estes aparelhos transportam tecnologia de rádio e enviam sinal para baixo como se fossem uma enorme antena de telemóvel suspensa no ar. A energia vem de painéis solares de grande área e de baterias, o que permite que algumas plataformas permaneçam no ar durante semanas ou até meses sem interrupção.

Vantagens face aos satélites e às torres de telecomunicações

A posição “intermédia” traz três vantagens decisivas:

  • Menor latência: os sinais percorrem apenas algumas dezenas, e não centenas, de quilómetros. Isso reduz o atraso na navegação e no streaming.
  • Cobertura de grandes áreas: uma única plataforma pode, consoante a tecnologia, servir centenas de milhares de quilómetros quadrados - ideal para zonas pouco povoadas.
  • Baixo custo por habitante: é necessária muito menos infraestrutura em terra, e o lançamento é mais barato do que uma foguetão com satélites.

Em condições ideais, as plataformas na estratosfera estendem no céu uma vasta rede virtual de torres de telecomunicações - sem que seja preciso escavar um único metro de fibra ótica.

Os principais projetos: dirigíveis, drones solares e drones a hidrogénio

A ideia não é propriamente recente. Já nos anos 1990 tinham começado os primeiros testes. O caso mais conhecido foi o projeto Loon, da Alphabet, empresa-mãe da Google, com balões nas correntes de altitude. Em 2021, foi encerrado porque a tecnologia era demasiado cara, demasiado sensível ao vento e, face às redes por satélite, difícil de escalar.

Entretanto, já existem células solares mais eficientes, materiais mais leves e sistemas de navegação melhorados. Várias empresas estão agora a dar uma segunda oportunidade à ideia - e querem provar que o modelo de negócio compensa.

Sceye: um enorme dirigível solar sobre o deserto

A start-up norte-americana Sceye aposta num dirigível com 65 metros de comprimento, cheio de hélio e coberto de painéis solares. Ele consegue manter a posição com precisão sobre uma região específica, em vez de ser simplesmente arrastado pelo vento.

A partir dessa “posição de estacionamento” na estratosfera, a Sceye transmite internet de banda larga para o solo. O objetivo é oferecer um serviço de internet completo, tão estável como uma rede móvel tradicional, mas com muito menos infraestrutura em terra.

Aalto HAPS: o drone Zephyr do grupo Airbus

O grupo aeronáutico Airbus também está presente neste segmento através da sua subsidiária Aalto HAPS. O projeto principal chama-se Zephyr, um drone solar extremamente leve com apenas 25 metros de envergadura.

Em testes, o Zephyr já conseguiu voos de até 67 dias seguidos. Trata-se de um marco importante, porque quanto mais tempo a plataforma se mantém no ar, menores são os custos de manutenção e de operação por utilizador servido.

World Mobile: drone a hidrogénio com largura de banda turbo

Outro candidato é a empresa britânica World Mobile. A empresa trabalha com drones movidos a hidrogénio, pensados para combinar grande capacidade de carga com resistência prolongada. Segundo os dados da empresa, uma única plataforma pode levar até 200 Megabit por segundo de largura de banda para o ar.

Exemplo concreto de cálculo: apenas nove destes drones poderiam, em teoria, servir os cerca de 5,5 milhões de habitantes da Escócia com internet rápida. O preço calculado ronda 0,80 euros por pessoa e por mês - face aos cerca de 75 libras atualmente convertidos para uma única subscrição Starlink.

Se estes números estiverem sequer perto da realidade, a internet da estratosfera seria para muitas regiões muito mais plausível do que uma subscrição satélite própria.

Peça para uma cobertura global real - mas com obstáculos

A nova tecnologia não pretende substituir os satélites, mas complementá-los. A visão de muitos operadores é uma rede em três níveis: fibra ótica e telecomunicações móveis em terra, plataformas na estratosfera acima disso e satélites como sistema de reserva global.

Para que isso funcione, várias condições têm de ser cumpridas:

  • As frequências (espectro) têm de ser coordenadas com as redes móveis e satélite.
  • A segurança de voo e as regras do espaço aéreo não podem ser violadas.
  • As regras para tráfego de dados e neutralidade da rede também têm de se aplicar às plataformas na estratosfera.

Sem um enquadramento jurídico claro, podem surgir interferências de rádio ou conflitos com serviços já existentes. Estes aparelhos não ficam fora de qualquer regulação só por estarem a voar mais alto do que os aviões normais.

O que significam aqui termos como latência e largura de banda

Quem compara a internet da estratosfera com fibra ótica ou satélite depara-se rapidamente com termos técnicos:

  • Latência: é o tempo que um pacote de dados demora a ir do dispositivo ao servidor e a regressar. Em percursos longos - como até satélites em órbita - este atraso aumenta. As chamadas e os jogos online ficam então mais “pesados”.
  • Largura de banda: descreve quantos dados podem ser transmitidos por segundo. Uma largura de banda elevada permite transmissões de vídeo nítidas e vários utilizadores em simultâneo sem quebras.
  • Banda larga: em linguagem corrente, internet com velocidade suficiente para vídeo, videochamadas e serviços na cloud.

As plataformas na estratosfera encurtam de forma significativa o percurso do sinal. Isso reduz a latência face aos satélites, embora continue naturalmente acima da velocidade de uma ligação direta por fibra ótica. A força desta solução está na combinação entre alcance, atraso aceitável e capacidade para servir muita gente.

Oportunidades e riscos para utilizadores e Estados

Para aldeias isoladas em África, Ásia ou América Latina, uma rede HAPS pode significar que escolas, centros de saúde e pequenos negócios passem, pela primeira vez, a estar online de forma estável. Isso altera oportunidades educativas, acesso a mercados e liberdade de informação.

Também os países industrializados podem beneficiar: parques eólicos offshore, rotas marítimas, zonas de catástrofe ou regiões montanhosas podem ser rapidamente cobertos quando a infraestrutura terrestre é destruída ou economicamente inviável.

Os riscos mantêm-se: a dependência de poucos operadores privados pode agravar conflitos políticos. As plataformas na estratosfera também podem ser usadas para tecnologia de vigilância ou para fins militares. Por isso, regras transparentes sobre o uso de dados e sobre o papel das autoridades públicas serão fundamentais.

A forma como os preços evoluírem será decisiva. Se as vantagens de custo se confirmarem, as ofertas de satélite tradicionais ficarão sob pressão no mercado de massas. A Starlink e outras terão provavelmente de responder - com tarifas mais baixas, novos serviços ou os seus próprios projetos na estratosfera.

Para utilizadores em regiões mal servidas, poderá surgir nos próximos anos uma opção completamente nova: não um conjunto satélite caro no telhado, mas simplesmente um router normal, a comunicar discretamente com uma “torre” muito acima, na estratosfera.

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