Embora muitos jardineiros amadores prefiram ficar no quentinho durante o inverno, há um período ideal a escapar-nos quase sem darmos por isso: a oportunidade de criar um solo solto e rico em nutrientes com o mínimo de esforço. Um método pouco conhecido da permacultura dispensa totalmente a escavação, aproveita restos de cozinha e do jardim - e consegue transformar, até à primavera, até as áreas mais duras e problemáticas em canteiros produtivos.
O que está realmente por trás da jardinagem em lasanha
O nome soa a receita de cozinha, mas descreve com bastante precisão o princípio. Tal como num prato no forno, no jardim também se formam várias camadas - só que, em vez de placas de massa, usa-se matéria orgânica. Essas camadas criam diretamente sobre o solo existente uma espécie de compostagem em superfície, que aos poucos se converte em terra viva, escura e rica em húmus.
Jardinagem em lasanha significa: alimentas primeiro o solo, não as plantas - e mais tarde as plantas colhem o benefício em dobro.
A técnica inspira-se em modelos naturais. Na floresta ninguém revolve a terra, nem retira as folhas. Folhagem, ramos, ervas mortas e dejetos de animais acumulam-se, decompõem-se lentamente e formam uma camada espessa de húmus. É exatamente esse processo que os canteiros em lasanha trazem para a horta - só que acelerado e colocado precisamente no sítio onde depois vais colher.
Se começares em janeiro ou fevereiro, a chuva, o frio, o degelo e os organismos do solo têm vários meses para transformar o material. Na primavera, ficas com um canteiro fofo, de tom escuro intenso, pronto a receber plantas diretamente - sem pá, sem motoenxada.
A base de qualquer canteiro em lasanha: o cartão trava as ervas daninhas
O arranque parece estranho, mas é decisivo: em vez de começar por cavar, colocas uma camada de cartão castanho, sem revestimento, sobre o solo. Pode ser um relvado, uma faixa tomada por ervas espontâneas ou até uma terra nua, endurecida e encrostada.
Esses cartões cumprem duas funções:
- Bloqueio da luz: o solo por baixo fica totalmente escurecido, as gramíneas e ervas já existentes acabam por morrer e decompõem-se no local.
- Alimento para a vida do solo: o cartão fornece muito carbono, amolece com a humidade e torna-se apetecível para minhocas e bactérias.
É importante remover todos os componentes de plástico: fitas adesivas, etiquetas, janelas de película. Depois, dispões as peças de cartão com grande sobreposição - pelo menos 10 a 15 cm de margem - para que não fiquem falhas.
Depois de colocares o cartão, rega bem: só o cartão encharcado se adapta ao chão e começa rapidamente a decompor-se.
Assim defines com precisão a área do canteiro e crias uma zona bem delimitada, sobre a qual vais construir camada após camada.
O truque entre carbono e azoto: camadas na ordem certa
Sobre a camada de cartão vem a verdadeira “construção em lasanha”. O núcleo do método está no vai-e-vem entre dois grupos de materiais: os chamados componentes “castanhos” e “verdes”. Por trás disto está o equilíbrio químico entre carbono (C) e azoto (N).
Camadas castanhas: estrutura e reserva de água
“Castanho” refere-se a materiais secos, mais duros e ricos em carbono. Exemplos típicos no inverno:
- palha ou feno
- folhas secas do outono que tenhas recolhido
- aparas de madeira ou ramos triturados
- um pouco de serradura ou lã de madeira
- papel de jornal sem brilho, rasgado em tiras
Estas camadas podem e devem ser relativamente grossas. Dão arejamento à estrutura e funcionam como esponjas, retendo água e libertando-a de forma gradual para as raízes mais tarde.
Camadas verdes: o motor da decomposição
“Verde” descreve tudo o que tem muito azoto, normalmente suculento e macio. No inverno, entram sobretudo aqui:
- restos de legumes e fruta da cozinha
- borras de café e saquetas de chá sem partes de plástico
- resíduos de corte de relva, se houver
- estrume fresco ou parcialmente decomposto
- ervas aromáticas murchas, plantas de vaso e restos verdes de dentro de casa
Estes componentes ativam os microrganismos que decompõem tudo. Em excesso, podem provocar mau cheiro e apodrecimento; em falta, travam o processo.
Uma regra simples: cerca de duas partes de material castanho para uma parte de material verde.
Sobre o cartão molhado, começa por colocares uma camada solta e grossa de ramos finos ou palha. Depois segue uma camada mais fina de “verde”, por exemplo restos de cozinha ou estrume. Por cima, voltas a colocar uma camada bem mais espessa de “castanho”, como folhas secas. Repete este ritmo até obteres um monte com 30 a 50 cm de altura.
À primeira vista parece imenso, mas nos meses seguintes desce bastante - normalmente para metade.
O inverno transforma-se numa pequena central de reciclagem
Quem começa canteiros em lasanha em janeiro resolve, de passagem, um problema de resíduos. Em vez de deitar os biorresíduos no lixo indiferenciado ou de os levar regularmente ao ecocentro, tudo vai diretamente para o lugar onde mais tarde terá utilidade: o canteiro.
Resíduos típicos de inverno que encaixam muito bem:
- cascas de legumes de raiz, abóbora e beterraba
- em quantidades mais pequenas, cascas de citrinos, cortadas grosseiramente
- talos de couve, brócolos e couve-flor
- restos de plantas perenes retiradas na poda de outono
- terra velha e esgotada de vasos ou floreiras
A terra antiga de vasos ou floreiras ganha assim uma segunda vida. Ainda traz consigo minerais e microrganismos que colonizam as novas camadas. O que eram tarefas obrigatórias, como “limpar a cozinha” ou “arrumar os canteiros”, transforma-se passo a passo num projeto de preparação para colheitas futuras.
Ajudantes invisíveis: as minhocas como operárias do solo
Depois de montada a lasanha e bem regada, começa o verdadeiro trabalho principal - debaixo da superfície. O frio e a humidade não travam por completo a vida do solo; pelo contrário, a massa orgânica atrai minhocas, tatuzinhos, colêmbolos e inúmeros microrganismos.
As minhocas abrem galerias verticais, misturam cartão, terra e composto e deixam grânulos de excremento que as plantas podem aproveitar de imediato.
As minhocas, em particular, circulam constantemente entre o solo original e as camadas por cima. Puxam partículas finas para baixo, soltam a terra, criam canais de ar e melhoram o escoamento da água. O que antes era feito com muito esforço por uma forquilha de escavação passa a ser realizado de forma silenciosa e contínua.
A decomposição lenta também gera calor. Nas noites geladas, a temperatura dentro da lasanha mantém-se um pouco mais alta do que no solo sem intervenção. Dessa forma, a atividade biológica prolonga-se e o canteiro aquece mais depressa na primavera.
O momento da verdade na primavera: plantar sem cavar
Em abril ou maio, vê-se o efeito dos meses de inverno. O monte alto assentou, as camadas quase deixaram de ser distinguíveis. Em vez disso, tens à tua frente uma massa castanha-escura, granulada, que lembra o solo da floresta e tem um cheiro agradável a terra.
Para plantar, já não precisas de trabalho pesado de jardim. Na maioria dos casos, basta moldar uma pequena cova com a mão ou com uma colher de jardinar. Para plantas jovens, podes colocar um pouco de substrato fino de plantação ou sementeira no buraco, inserir o torrão e voltar a cobri-lo com a mistura da lasanha.
Mesmo que ainda sejam visíveis alguns restos nos primeiros centímetros, isso quase não incomoda as plantas. Pelo contrário, a decomposição contínua funciona como adubação de libertação lenta e, ao mesmo tempo, como uma cobertura morta que reduz a evaporação.
Há ainda outra vantagem: por baixo do cartão e de todas as camadas, germinam muito menos plantas espontâneas. A típica formação de crosta depois de chuvas fortes não aparece; o solo mantém-se fofo, a água infiltra-se e as raízes encontram facilmente o caminho.
Menos ervas espontâneas, menos regas, menos transporte de materiais - o verdadeiro esforço acontece meses antes, quando os outros ainda estão em pausa de inverno.
O que deves ter em conta - e o que mais compensa
Para que os canteiros em lasanha deem prazer durante muito tempo, há algumas regras básicas que ajudam:
- Evita cartões revestidos, folhetos brilhantes e cartolinas coloridas.
- Não incorpores carne, queijo ou restos de refeições cozinhadas, porque atraem animais indesejados.
- Pedaços grandes - como talos de couve - devem ser cortados grosseiramente para apodrecerem mais depressa.
- Depois de períodos secos, rega a lasanha de vez em quando, sobretudo em solos leves.
- No início, é preferível colocar hortícolas mais sensíveis como planta jovem, em vez de semear diretamente na lasanha.
O método compensa especialmente em locais difíceis: solos argilosos pesados, que normalmente só formam torrões, ou relvados compactados. A espessa camada orgânica traz a vida para cima, descompacta e melhora o subsolo sem que tenhas de o partir laboriosamente antes.
Como continuar a usar o sistema ano após ano
Um canteiro em lasanha não é um projeto para fazer uma única vez. Depois da primeira época, podes acrescentar novas camadas no outono e no inverno - desta vez mais finas, quase como uma mistura de cobertura morta e uma ligeira aplicação de composto. Restos de cozinha, folhas e um pouco de palha por cima mantêm o solo coberto durante todo o ano.
Assim, ao longo dos anos, forma-se um horizonte cada vez mais profundo e rico em húmus. A necessidade de água diminui, as raízes das plantas descem mais fundo e as colheitas tornam-se mais estáveis. Quem quiser pode combinar esta técnica com cultura associada ou com elementos de permacultura, por exemplo suportes para feijão ou pequenos arbustos de fruto na borda.
Muitos jardineiros amadores que começam com um único canteiro em lasanha acabam por criar, aos poucos, outras áreas: uma faixa para abóbora e curgete, uma zona soalheira para tomateiros, um pequeno jardim de petiscos para crianças. A desconfiança inicial depressa costuma dar lugar à perceção de que “não cavar” está longe de significar preguiça - é antes uma utilização inteligente dos processos da natureza.
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