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Acrilamida na fritadeira de ar: o que um novo estudo põe em causa

Mulher a utilizar uma fritadeira elétrica preta na cozinha com batatas fritas num prato à frente.

O aparelho promete resultados estaladiços com pouco óleo. Agora, novas conclusões levantam dúvidas sobre o que acontece dentro dos alimentos ricos em amido quando o ar quente e rápido os aloura até ficarem perfeitos.

O que o novo estudo encontrou sobre a acrilamida na fritadeira de ar

Uma análise laboratorial recente comparou batatas fritas preparadas numa fritadeira de ar com batatas fritas feitas pelo método tradicional. No lote confecionado na fritadeira de ar, a média foi de 12,19 µg/kg de acrilamida e, nessa ronda de testes, o valor ficou acima do obtido no equivalente convencional. Os resultados geraram preocupação, porque a acrilamida se forma em alimentos amarelados e tostados, ricos em amido, quando são expostos a temperaturas elevadas.

A acrilamida forma-se quando os açúcares e o aminoácido asparagina reagem acima de cerca de 120 °C. Quanto mais escuro for o tom castanho, maior é o risco.

A reacção mais visível veio da Dra. Poonam Desai, médica com foco na longevidade, que entretanto retirou a sua fritadeira de ar de casa. A sua posição é clara: é o tempo de cozedura e a temperatura, e não o óleo, que fazem disparar a acrilamida. A opinião espalhou-se depressa nas redes sociais e reabriu uma discussão que muitos consumidores julgavam encerrada: as fritadeiras “mais saudáveis” são sempre mais saudáveis?

Porque é que o alourado traz um risco químico

A cor dourada sabe bem porque resulta da reação de Maillard. É precisamente essa mesma reação que pode gerar acrilamida em alimentos ricos em amido, como batatas, pão e bolachas salgadas. O calor seco acelera todo o processo. Quando há menos humidade e os cortes são mais finos, os alimentos cozinham mais depressa, ganham uma cor mais intensa e podem acumular mais acrilamida na crosta exterior.

As fritadeiras de ar usam convecção rápida e seca. As fritadeiras por imersão submergem os alimentos em óleo quente. Em ambos os casos pode haver formação de acrilamida, mas o equilíbrio muda consoante o tamanho do corte, o teor de açúcar da batata, o pré-tratamento, a temperatura e a duração da cozedura. Um tempo mais longo a uma temperatura mais alta aumenta fortemente a formação. O mesmo acontece com a polpa de batata armazenada no frigorífico, porque as batatas refrigeradas tendem a desenvolver mais açúcares.

A voz da saúde pública traça uma linha

O que fez a especialista

Depois de analisar os dados, a Dra. Desai abandonou o aparelho e pediu prudência. O seu argumento é que a conveniência de obter crocância numa bancada esconde uma troca que, em casa, muitos cozinheiros não chegam a ver: alourar é química, e a química não deixa de agir só porque não há óleo.

Deve deitar a sua fora?

O contexto é importante. Os valores comunicados variam bastante consoante a receita e a técnica. A título de referência, as autoridades reguladoras europeias definem níveis de referência - e não limites de segurança - para batatas fritas prontas a comer na ordem das centenas de µg/kg. Isto significa que a única medição de 12,19 µg/kg deste estudo fica baixa em comparação com esses valores de referência, mas a comparação relativa continua a levantar uma questão legítima: em certas condições, fritar em ar pode produzir mais acrilamida do que fritar por imersão.

Se gosta da sua fritadeira de ar, ainda assim pode reduzir bastante o risco mudando a forma como prepara e cozinha.

Dourado, não castanho. Pare de cozinhar quando a superfície atingir um amarelo-dourado claro. Uma crosta escura significa mais acrilamida.

Como reduzir o risco já hoje

  • Escolha batatas firmes, sem manchas verdes nem rebentos. Evite batatas guardadas no frigorífico, porque costumam concentrar mais açúcares.
  • Coloque os pedaços de batata de molho em água durante 15 a 30 minutos para remover açúcares da superfície. Troque a água uma vez. Seque muito bem.
  • Escalde rapidamente em água a fervilhar suavemente durante 2 a 3 minutos e depois arrefeça e seque. O escaldão reduz os açúcares e acelera a cozedura do interior.
  • Prefira cortes mais grossos. As batatas tipo palito fino alouram depressa e podem formar mais acrilamida.
  • Cozinhe a, ou abaixo de, 175 °C. Temperaturas mais altas alouram mais depressa e aumentam o risco de acrilamida.
  • Evite pré-aquecimentos prolongados e cozeduras demasiado longas. Agite o cesto para que as peças alourem de forma uniforme sem expor em excesso as extremidades.
  • Procure uma cor amarelo-dourada clara. Retire os alimentos mais cedo, em vez de os levar até um castanho intenso.
  • Considere batatas fritas congeladas parcialmente cozinhadas, feitas a partir de variedades de batata com menos açúcar. Muitas passam por etapas de escaldão que reduzem os precursores.
  • Guarde as batatas cruas num local fresco, escuro e seco, e não no frigorífico.

Também vale a pena ter atenção aos temperos. Misturas com açúcar, mel ou xarope podem acelerar o escurecimento e dificultar a obtenção de uma cor dourada clara. Outro cuidado simples é não encher demasiado o cesto: quando o ar circula mal, algumas peças ficam mais escuras do que outras e o resultado final torna-se menos uniforme.

Como os métodos se comparam quanto ao potencial de acrilamida

Alimento + método Potencial relativo Principais fatores
Batatas fritas na fritadeira de ar (finas, escuras) Médio-alto calor seco, temperatura elevada, mais tempo, corte fino
Batatas fritas por imersão (douradas) Médio óleo quente, humidade à superfície, cor controlada
Batatas fritas no forno (bem tostadas) Médio-alto calor seco, alourado lento, extremidades desidratadas
Batatas cozidas ou ao vapor Baixo calor húmido abaixo da gama de alouramento
Tosta muito escura Alto baixa humidade, alourado prolongado
Café torrado Moderado torrefação dos grãos a alta temperatura

O que dizem os reguladores e a investigação

A acrilamida foi classificada como “provavelmente carcinogénica para os humanos” por agências internacionais do cancro, com base sobretudo em estudos em animais com doses elevadas. Os estudos em humanos, aos níveis alimentares do dia a dia, apresentam resultados mistos, o que mantém o foco na redução do risco e não no alarme. As agências dos dois lados do Atlântico aconselham consumidores e fabricantes a limitar a formação sempre que isso seja possível.

Na Europa, os níveis de referência servem como sinal de arranque para a indústria investigar e otimizar processos, e não como limites absolutos de toxicidade. Essa nuance é importante na cozinha. Um número mais baixo é sempre preferível a um número mais alto, independentemente de onde um lote específico fique face a um nível de referência regulamentar.

Para além das batatas fritas: onde ela se esconde

Muitos alimentos favoritos contribuem para a ingestão de acrilamida: bolachas salgadas, biscoitos, cereais de pequeno-almoço, café torrado, tostas muito escuras e legumes de raiz bem tostados. As crianças tendem muitas vezes a receber uma dose maior por quilo de peso corporal, porque os snacks e os cereais ocupam um lugar relevante na sua alimentação.

Duas estratégias ajudam em quase todos os casos. Em primeiro lugar, reduza o tempo em que os alimentos passam a alta temperatura e pare quando a cor estiver apenas dourada clara. Em segundo lugar, privilegie métodos de cozedura com calor húmido - cozer, cozinhar a vapor ou na panela de pressão - para os alimentos de base que não precisam de crosta.

Substituições inteligentes e pequenos testes

Quer crocância sem exagerar no alourado? Experimente gomos mais grossos, um breve pré-cozimento em água e um acabamento a temperatura mais baixa. Uma passagem rápida por água com um toque de vinagre pode reduzir os açúcares à superfície e abrandar o escurecimento. Levar as batatas ao micro-ondas por pouco tempo antes de as tornar crocantes também reduz o período em que passam na zona de formação de acrilamida.

No pão, torre apenas até dourado claro. No café, alterne níveis de torra e métodos de preparação. Nos lanches, junte frutos secos ou fruta, onde a reação de Maillard tem um papel muito menor.

O que esta história deixa aos cozinheiros em casa

Os dados mais recentes acrescentam um sinal de prudência a um eletrodoméstico extremamente popular. Pode manter a conveniência e, ao mesmo tempo, gerir a química. Use temperaturas mais baixas, tempos mais curtos, cortes mais grossos e passos de preparação que reduzam os açúcares. Varie os métodos de confeção ao longo da semana para que nenhuma fonte isolada domine a sua exposição.

Há ainda outro ponto que raramente é discutido: a limpeza. Raspe e lave os resíduos tostados do cesto e dos tabuleiros. A acumulação carbonizada pode criar pontos mais quentes e crostas mais escuras no lote seguinte. Pequenos hábitos destes inclinam a balança a seu favor, uma assadeira de cada vez.

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