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A enigmática **Faixa de Buracos** no Peru e a hipótese de um sistema fiscal Inca

Pessoa kneeling no deserto junto a buracos no solo, segurando tablet, com equipamento e fita métrica ao lado.

As marcas deixadas pela actividade humana na paisagem funcionam, muitas vezes, como pistas sobre a forma como os nossos antepassados viveram há centenas - e até milhares - de anos. Um dos exemplos mais estranhos actualmente em análise no Peru é uma faixa de terreno com cerca de 1,6 km de comprimento, coberta por uma sucessão de pequenas cavidades rasas e enigmáticas.

O que poderá ser a Faixa de Buracos?

Dois arqueólogos defendem agora que esta Faixa de Buracos poderá ter integrado um antigo sistema de impostos Inca, no qual os poços, revestidos com pedras, seriam usados para medir produtos alimentares e, posteriormente, redistribuí-los. Sabe-se, através de diários e registos de primeiros visitantes europeus na América do Sul, que já existiam mecanismos de tributo organizados no mundo Inca - e esta estrutura poderá ser a peça que faltava para compreender um aspecto concreto desse processo.

Investigação com VANT e o primeiro registo aéreo (1931)

A hipótese está a ser apresentada por Charles Stanish e Henry Tantaleán, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que têm recorrido a veículos aéreos não tripulados (VANT) para mapear o local com detalhe.

Curiosamente, acredita-se que o desenho das cavidades terá sido identificado pela primeira vez graças a fotografia aérea: a imagem mais antiga conhecida, captada a partir do céu, data de 1931.

Proximidade de uma estrada Inca e indícios materiais

Stanish e Tantaleán sublinham que a faixa se encontra junto de uma importante estrada Inca, o que reforça a ideia de um uso logístico e administrativo. Nas imediações existem também fragmentos de cerâmica Inca e vestígios de um armazém, conhecido como colca, relativamente próximo.

Colca, tributo e redistribuição: por que razão os buracos fariam sentido?

As colcas eram estruturas utilizadas para guardar alimentos e têxteis e, depois, distribuí-los pelas comunidades. Na prática, tratava-se de uma forma inicial de organização fiscal: parte da riqueza recolhida circulava entre as autoridades e as pessoas que dela necessitavam.

Sabe-se ainda que, nas colcas, eram usados esquemas em grelha desenhados no chão para medir os bens entregues como tributo. Por isso, Stanish e Tantaleán propõem que a Faixa de Buracos seria um sistema semelhante - mas implantado ao ar livre, ao longo de um trajecto onde faria sentido parar para registar e contabilizar carga.

Um contexto mais amplo: estradas, controlo e contabilidade Inca

A rede viária Inca (frequentemente associada a postos de apoio e armazenamento) ajudava a articular territórios vastos, facilitando deslocações, abastecimento e decisões administrativas. Nesse quadro, espaços padronizados de medição e entrega de produtos - especialmente junto a vias importantes - encaixam numa lógica de controlo, circulação e redistribuição.

Além disso, é plausível que medições e entregas fossem registadas por meios administrativos próprios, como sistemas de contabilidade e inventariação, reforçando a ideia de que estas cavidades poderiam servir de suporte físico a um procedimento regular de recolha e gestão de tributos.

Como são as cavidades e de que época datam?

As cavidades, datadas do século XV, não são totalmente uniformes. Cada uma terá cerca de 0,91 m de largura e uma profundidade aproximada de 51 a 102 cm.

Importa notar que não foram escavadas directamente na rocha. Em vez disso, parecem ter sido feitas através da acumulação de terra e do empilhamento de pedras para formar os limites - uma solução que, ainda assim, teria exigido um investimento de trabalho considerável.

Levantamento detalhado desde 2015: mais de 5.000 depressões

Os arqueólogos começaram a analisar o local de forma aprofundada em 2015. Identificaram tipos diferentes de cavidades, organizadas em blocos, e utilizaram VANT com câmaras para cartografar a posição de mais de 5.000 depressões.

Com base nessa escala, suspeitam que a construção poderia ter exigido cerca de 100 trabalhadores durante aproximadamente um mês.

“O sítio perfeito para parar e medir”: a interpretação de Stanish

Stanish refere que as equipas que escavam e estudam colcas já tinham “uma explicação muito sólida” para o modo como os quadrados em grelha eram usados para medir tributo. Segundo ele, seria plausível que as cavidades na Faixa de Buracos, no local de Monte Sierpe, tivessem servido igualmente para quantificar tributos.

Na sua leitura, tratava-se do “local perfeito para parar, medir a produção e garantir que se entregava a quantidade correcta de tributo”.

Outras hipóteses populares: de extraterrestres a geoglifos

Como acontece com muitas estruturas difíceis de interpretar à primeira vista, não faltaram explicações alternativas. Alguns chegaram a especular que a faixa teria origem em extraterrestres; outros sugeriram que poderia ser um marco de trilho, uma estrutura defensiva ou um geoglifo (um grande motivo desenhado na paisagem).

O que falta para confirmar a teoria?

A equipa pretende aprofundar o estudo do terreno para procurar vestígios de milho, feijões, abóboras ou malaguetas. A identificação destes restos orgânicos ajudaria a sustentar a ideia de que ali se mediam e movimentavam produtos alimentares.

Por agora, nem todos os investigadores concordam com a interpretação de Stanish e Tantaleán sobre a função destas cavidades. Ainda assim, novas análises poderão ser suficientes para demonstrar que se tratava, de facto, de um sistema rudimentar de medição de impostos no mundo Inca.

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