É uma confissão difícil de engolir. Jim Farley, director executivo da Ford, admite que a Tesla e os construtores chineses estão muito à frente no universo dos veículos eléctricos - uma vantagem que quer reduzir, custe o que custar.
Em declarações no podcast Office Hours: Edição de Negócios, o responsável da Ford contou que a experiência de desmontar uma primeira Tesla Model 3 - e, mais tarde, vários modelos chineses - foi um exercício de humildade. “Fiquei muito humilde… o que descobrimos foi chocante”, relatou. Este tipo de análise é comum na indústria automóvel, precisamente para perceber soluções de engenharia e opções de concepção dos concorrentes.
A Ford não tardou a perceber porquê. Por volta de 2020/2021, a marca concluiu que o seu SUV eléctrico Mustang Mach‑E tinha cerca de 1,6 km de cabos a mais do que o modelo comparável da Tesla. Esse excesso de cablagem aumenta o peso total, o que obriga a uma bateria maior e, por consequência, mais cara. A leitura foi semelhante ao olhar para a concorrência asiática: os modelos chineses eram mais leves e integravam tecnologias mais avançadas.
Viragem estratégica da Ford nos veículos eléctricos
Depois de assumir funções na Ford em 2020, Jim Farley avançou com uma reformulação profunda da estratégia. Em 2022, criou uma divisão exclusivamente dedicada aos veículos eléctricos, chamada Model E. Embora esta unidade tenha somado mais de 5 mil milhões de dólares em perdas em 2024, Farley diz que estava preparado para o choque. Na sua visão, seria inevitável: sabia que o impacto financeiro seria duro, mas era um problema que tinha de ser enfrentado.
Mesmo com a suspensão da produção da pick-up eléctrica F‑150 Lightning, a Ford garante que vai regressar com mais força. O novo foco passa por uma plataforma universal, pensada para desenvolver veículos mais eficientes e, sobretudo, mais acessíveis.
O primeiro modelo assente nessa base deverá ser uma pick-up eléctrica com preço a rondar os 30 000 dólares (aprox. 28 000 €), com chegada prevista para 2027.
A China domina o mercado eléctrico
Jim Farley não esconde a admiração pela China, que descreve como o centro nevrálgico do mercado global de veículos eléctricos. “Os veículos eléctricos estão a explodir na China”, sublinhou, lembrando que metade dos automóveis novos vendidos no país já são eléctricos, enquanto nos EUA esse valor ronda apenas 10%.
O dirigente destaca ainda a política de Pequim para acelerar a transição, assente em subsídios massivos e num apoio industrial robusto. No sentido contrário, refere que os EUA terminaram recentemente o crédito fiscal federal para compradores de veículos eléctricos, uma decisão que, na sua perspectiva, deverá travar as vendas de forma significativa.
“Não podemos abandonar os veículos eléctricos - não só por causa dos EUA, mas para continuarmos a ser uma empresa global”, afirma. Já na Europa, assinala-se uma recuperação: durante três meses consecutivos, as vendas voltaram a subir, impulsionadas, entre outros factores, por modelos eléctricos mais baratos.
O que está realmente em jogo: custos, software e cadeia de fornecimento
Para além do desenho da cablagem e do peso dos veículos, a corrida passa por áreas menos visíveis para o consumidor: a cadeia de fornecimento de baterias, a capacidade de industrialização em grande escala e a integração de software. Quem conseguir produzir com menos complexidade, reduzir desperdícios e actualizar funcionalidades de forma mais rápida tende a ganhar margem - e a baixar preços sem comprometer a rentabilidade.
Outro ponto decisivo é a infra-estrutura de carregamento e a experiência de utilização associada. A adopção de veículos eléctricos depende tanto do produto como do ecossistema: disponibilidade de postos, fiabilidade, custos de carregamento e facilidade de pagamento. Neste quadro, a distância entre líderes e seguidores não se mede apenas em quilómetros de cabos, mas também na consistência do serviço entregue ao longo de toda a vida útil do automóvel.
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