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Cientistas dizem ser importante estudar melhor a saúde sexual no espaço.

Dois cientistas em fatos espaciais analisam holograma de feto e ADN numa sala de laboratório com vista da Terra.

A humanidade está a passar mais tempo no espaço do que nunca - e leva consigo as suas gónadas. Ainda assim, vários cientistas alertam que a saúde sexual no espaço e a saúde reprodutiva continuam a ser um verdadeiro ponto cego das políticas e que este tema tem de ser encarado com muito mais seriedade.

O que as missões longas fazem ao corpo: radiação cósmica, microgravidade e relógio biológico

Permanecer durante longos períodos fora da Terra pode desorganizar profundamente o organismo. A radiação cósmica é inevitável, a microgravidade torna muitos movimentos e esforços “demasiado fáceis”, e os sinais habituais que nos ajudam a perceber a hora e a regular o sono deixam de ser fiáveis.

Existe bastante investigação sobre estes efeitos mais “aceitáveis” e amplamente discutidos, mas, seja por prioridades concorrentes ou por algum pudor institucional, a saúde reprodutiva tem ficado para segundo plano.

Saúde reprodutiva humana no espaço: o alerta da Universidade de Leeds

Numa revisão liderada pelo embriologista Giles Palmer, da Universidade de Leeds, nove cientistas sublinham a preocupação com aquilo que ainda se desconhece, precisamente numa fase em que as viagens espaciais se tornam mais frequentes e em que o voo espacial comercial acelera.

Segundo Palmer e a sua equipa, “apesar de mais de 65 anos de actividades de voo espacial humano, sabe-se pouco sobre o impacto do ambiente espacial nos sistemas reprodutores humanos durante missões de longa duração”.

O pouco que existe - estudos laboratoriais e alguns dados em humanos - aponta, no entanto, para um cenário pouco favorável: o espaço parece ser um ambiente hostil para os sistemas reprodutores de quem vive na Terra.

O risco central: raios cósmicos e alterações no ADN

O principal problema identificado são os raios cósmicos: partículas vindas do espaço profundo que podem provocar alterações no nosso ADN ao atravessarem o corpo. Tal como acontece com a exposição à radiação na Terra, se esses “erros” ocorrerem numa célula reprodutiva (espermatozoide ou óvulo) que venha a originar um embrião, as consequências podem ser significativas.

Em estudos com animais, observou-se que a exposição de curto prazo à radiação pode perturbar os ciclos menstruais e aumentar o risco de cancro. Já no caso de missões mais longas, continua a haver muito pouca informação sólida recolhida em humanos.

Após analisarem a literatura disponível, Palmer e colaboradores concluem ainda que sabemos quase nada sobre o efeito da exposição repetida à radiação na fertilidade masculina.

O que sugerem os poucos dados existentes: limites, reversibilidade e sistema neuroendócrino

Entre os resultados disponíveis, um estudo indica que doses de radiação acima de aproximadamente 250 mGy podem interferir com a formação de espermatozoides, embora o efeito possa ser reversível.

Outro trabalho levanta a hipótese de que missões mais prolongadas possam ter impactos mais graves no sistema neuroendócrino, responsável pela regulação das hormonas reprodutivas.

Mais lançamentos, mais pessoas: o avanço do voo espacial comercial

Estão a ser lançados mais foguetões do que nunca, impulsionados pelo crescimento do investimento comercial no sector espacial e pela descida de custos à medida que a tecnologia evolui.

Até aqui, missões da NASA e de outras agências públicas mantiveram regras rigorosas relacionadas com a saúde sexual e reprodutiva no espaço - mas essas regras podem não ser viáveis, ou até eticamente defensáveis, quando aplicadas por empresas privadas.

Por exemplo, astronautas integrados em programas de agências espaciais não podem viajar para o espaço se estiverem grávidas, e, em geral, existem limites para a quantidade de radiação a que cada astronauta pode estar exposto.

Regulamentos com efeitos colaterais: limites de radiação, risco oncológico e discriminação

Estas normas também trazem problemas próprios. A NASA estabeleceu limites de exposição à radiação para astronautas em órbita baixa da Terra de 50 mSv por ano, mas fixou um limite mais baixo para mulheres, por o risco ser mais elevado para cancro do ovário e cancro da mama.

Embora o risco seja real, especialistas em direito referem que estas diferenças de tratamento podem igualmente configurar discriminação baseada no género.

O maior receio para o sector privado: ausência total de regras e padrões

No campo do voo espacial comercial, a inquietação da equipa de Palmer é outra: a falta de regulação de base. Neste momento, não existem padrões transversais à indústria para gerir riscos relacionados com a saúde reprodutiva.

Os autores colocam questões directas: - Devem as empresas monitorizar o estado de gravidez de trabalhadores? - E no caso de viajantes comerciais e turistas? - Devem os formulários de consentimento informado incluir estimativas de alterações no risco de sucesso reprodutivo a longo prazo e de possível dano para um feto?

A realidade é que, enquanto não houver melhor conhecimento sobre os impactos reprodutivos do voo espacial, será difícil avisar adequadamente potenciais passageiros e trabalhadores acerca dos riscos.

O que falta fazer: investigação aplicada, aconselhamento e protecção ética

Além de mais dados, será necessário definir como recolher informação sem violar privacidade e autonomia, garantindo confidencialidade e evitando que decisões profissionais dependam indevidamente de dados íntimos. Em paralelo, importa discutir medidas práticas de redução de risco, como melhorias de blindagem contra radiação, acompanhamento médico específico e aconselhamento pré-voo sobre fertilidade, planeamento familiar e janelas de exposição.

Também faz sentido explorar estratégias preventivas para quem pretende constituir família após missões prolongadas, incluindo opções de preservação de gâmetas antes do voo e protocolos clínicos para seguimento pós-missão. Estas abordagens não substituem a necessidade de evidência robusta, mas podem integrar um quadro de gestão de risco enquanto o conhecimento científico evolui.

“O ponto cego das políticas” já não é sustentável

“Ora, à medida que a presença humana no espaço se expande, a saúde reprodutiva já não pode continuar a ser um ponto cego das políticas”, afirma o cientista investigador da NASA Fathi Karouia, autor sénior do estudo.

Karouia acrescenta que é “urgentemente necessária colaboração internacional” para colmatar lacunas críticas de conhecimento e estabelecer orientações éticas que protejam astronautas profissionais e privados - e, no fim de contas, salvaguardem a humanidade à medida que avançamos para uma presença sustentada para lá da Terra.

A investigação foi publicada na Biomedicina Reprodutiva Online.

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