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CDC alerta: parasita carnívoro perigoso está a espalhar-se em direção aos EUA.

Veterinário examina orelha de cão ferido numa clínica com mapa e computador ao fundo.

A bicheira do Novo Mundo (Cochliomyia hominivorax) está a provocar um surto no México e na América do Sul, com sete mortes humanas confirmadas e pelo menos 1.190 pessoas infetadas. Perante sinais de progressão para norte, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) emitiram um alerta sanitário dirigido a profissionais de saúde e do setor veterinário.

Casos em animais no México e preocupação junto à fronteira com o Texas

No México, existem atualmente 601 casos ativos em animais. Entre estes, oito foram detetados em Tamaulipas, estado mexicano que faz fronteira com o Texas, o que levou o CDC a reforçar a vigilância e a divulgar recomendações para o sistema de saúde norte-americano.

O receio é particularmente elevado devido ao peso económico do Texas na pecuária: sendo o maior estado produtor de bovinos nos EUA, um surto de bicheira do Novo Mundo poderá traduzir-se em prejuízos na ordem dos 1,8 mil milhões de dólares, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.

O que é a bicheira do Novo Mundo (Cochliomyia hominivorax) e como infeta

A bicheira do Novo Mundo é causada pela larva de uma mosca que se instala e se alimenta em feridas e em mucosas de animais de sangue quente.

Os bovinos, os cavalos e os suínos são as vítimas mais frequentes, mas o parasita também pode depositar ovos no tecido de cães, gatos e até humanos. Sem tratamento, a infestação pode ser fatal, chegando a matar uma vaca adulta em cerca de uma semana.

Antes da década de 1960, só no Texas, os criadores de gado tratavam aproximadamente 1 milhão de casos por ano, o que ilustra o impacto histórico desta praga.

Como a praga foi erradicada e por que pode regressar

O CDC recorda que se trata de uma praga “devastadora” que foi erradicada dos EUA em 1966 e voltou a ser eliminada em 2017, após larvas terem infetado veados na Flórida em 2016.

Um detalhe biológico ajudou as campanhas de controlo: as fêmeas costumam acasalar apenas uma vez ao longo de uma vida média de 21 dias, enquanto os machos podem acasalar múltiplas vezes.

Em 1962, investigadores começaram a usar radiação gama para produzir machos estéreis. Cada macho estéril, ao acasalar com várias fêmeas selvagens, levava à produção de ovos não fecundados, reduzindo progressivamente a população.

Foram libertados, a partir de aviões, milhares de milhões de machos estéreis sobre o sul da Flórida, Texas, Califórnia, Arizona e Novo México. Em 1982, a mosca foi considerada localmente extinta nos EUA, no México e em partes da América Central, graças à técnica do inseto estéril, combinada com tratamento químico do gado e condições meteorológicas favoráveis.

A barreira do Panamá, a passagem pelo Tapão do Darién e a nova expansão

Para travar a expansão, uma unidade no Panamá - país entre a América do Norte e a América do Sul, conhecido por uma faixa de selva hostil chamada Tapão do Darién - tem libertado continuamente moscas estéreis para funcionar como barreira. Ainda assim, em 2023, a praga conseguiu ultrapassar essa linha defensiva, retomando a progressão para norte e chegando ao México em novembro de 2024.

Em setembro de 2025, autoridades mexicanas confirmaram uma infestação numa vaca de 8 meses, a cerca de 113 km da fronteira com os EUA.

De acordo com o CDC, a rápida expansão para norte foi favorecida por movimentação não regulamentada de gado, por maior circulação através do Tapão do Darién e pela abertura de novas áreas agrícolas. Investigadores também alertam que as alterações climáticas podem estar a beneficiar estas moscas, com temperaturas mais altas a prolongarem o período de maior atividade e a ampliarem a sua distribuição geográfica.

Situação nos EUA e orientações do CDC para vigilância e resposta

Até ao momento, não foram registadas nos EUA infestações em animais ou em humanos associadas a este surto. Ainda assim, devido ao risco de expansão geográfica, o CDC publicou o alerta para aumentar a consciencialização e resumir recomendações para identificação e notificação de casos, colheita de amostras, diagnóstico e tratamento, além de orientações dirigidas ao público.

Do ponto de vista prático, a deteção precoce depende muito da observação de feridas que pioram rapidamente, com sinais compatíveis com miíase, e do encaminhamento célere para avaliação clínica e confirmação laboratorial. Em explorações pecuárias, a vigilância de lesões cutâneas, o isolamento de animais suspeitos e o controlo de movimentos podem ser determinantes para limitar a transmissão.

Para além das medidas oficiais, é recomendável reforçar rotinas de higiene e tratamento de feridas em animais (e em pessoas com lesões expostas), reduzir a atração de moscas nas proximidades de estábulos e manter a cooperação entre produtores, veterinários e autoridades de saúde animal, sobretudo em zonas com maior risco de introdução.

O alerta sanitário completo do CDC pode ser consultado no sítio oficial da agência.

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