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Investigadores descobrem enormes vermes nas profundezas do fundo do mar – todos ficam surpreendidos.

Fumarola hidrotermal subaquática com tubos brancos e extremidades vermelhas iluminada por robô submarino.

A centenas de quilómetros de qualquer costa, uma equipa de investigação encontrou algo que ninguém antecipava - escondido sob o fundo do mar.

Na escuridão permanente da zona abissal, as chaminés negras das fontes hidrotermais são há décadas vistas como autênticos polos de vida. O que esta nova evidência sugere, porém, é que o “palco” não se limita ao que se vê à volta destes fumadores negros: também existe atividade biológica por baixo. Um consórcio internacional de biólogos marinhos descreve vermes tubícolas gigantes detetados não no fundo, mas no interior do basalto, sob a crosta oceânica. À primeira vista parece enredo de ficção científica; na prática, obriga a rever pressupostos centrais sobre onde termina - e onde continua - a biosfera marinha.

Sob o fundo oceânico poderá existir uma “camada de biomassa” subestimada - como um piso secreto de vida.

Fontes hidrotermais: o que acontece à superfície (e por que importa)

Durante muito tempo, assumiu-se que os animais mais emblemáticos das zonas de rifte estavam confinados às estruturas visíveis das fontes hidrotermais. Nesses locais, fluidos ricos em minerais e metais, aquecidos no subsolo, irrompem pelo leito marinho a temperaturas que podem atingir cerca de 400 °C. Ao contactarem com a água fria da profundidade, arrefecem quase instantaneamente e precipitam minerais, construindo paisagens de torres negras, depósitos de enxofre e acumulações metálicas.

À volta destas chaminés, a vida é abundante: bactérias, mexilhões, caranguejos e os famosos vermes tubícolas brancos, capazes de atingir vários metros de comprimento. Esta imagem - vida concentrada “à volta do fumador” - foi durante anos o modelo dominante.

Vermes tubícolas gigantes no subsolo: vida para lá do fundo do mar

A nova investigação acrescenta uma camada inesperada a esse modelo. Em testemunhos de perfuração e em amostras recolhidas de cavidades no basalto, os cientistas identificaram vermes vivos de grande dimensão instalados no interior de rocha porosa. Ou seja: não se limitam a colonizar o fundo marinho - conseguem viver abaixo dele, nos interstícios da crosta oceânica.

Isto altera o enquadramento conceptual de forma profunda: o fundo do mar deixa de ser entendido como “teto” final da vida e passa a ser encarado como uma superfície relativamente permeável, sob a qual se escondem habitats adicionais.

Como entram no subsolo? A larva como peça-chave do mecanismo

A questão decisiva é o acesso: de que forma chegam estes animais a espaços subterrâneos? A explicação mais plausível envolve a larva. Em muitos organismos de profundidade, ovos e larvas são libertados na água e transportados por correntes durante longas distâncias. Em circunstâncias “normais”, acabam por se fixar em rochas, sedimentos ou diretamente nas estruturas das fontes.

No caso agora descrito, o percurso pode ser diferente. A evidência aponta para um transporte de larvas pelos próprios fluidos em circulação nas fontes hidrotermais, que percorrem fraturas e canais no subsolo. Esse fluxo funcionaria como um sistema de “tubagem” natural, capaz de arrastar larvas para fendas e espaços internos da rocha.

  • Ponto de partida: larvas a derivar na água fria profunda, junto ao fundo.
  • Transporte: correntes conduzem-nas para zonas de entrada associadas às fontes hidrotermais.
  • Infiltração: parte da água penetra em fissuras e poros da crosta oceânica.
  • Fixação e crescimento: as larvas encontram condições estáveis e desenvolvem-se até se tornarem vermes adultos.

Deste modo, estabelece-se um intercâmbio contínuo entre três níveis:

Nível Descrição
Oceano aberto Larvas em deriva, partículas, bactérias
Fundo do mar Fontes hidrotermais visíveis com grandes colónias animais
Subsolo Cavidades e fraturas na rocha com comunidades ocultas

Um reservatório escondido: a “camada de biomassa” sob a crosta oceânica

Vários especialistas já falam numa camada de biomassa abaixo do fundo marinho: um habitat amplo nos primeiros centenas de metros da crosta oceânica. Até aqui, assumia-se que esse domínio era sobretudo território de microrganismos sustentados por energia química, sem dependência de luz.

Os novos achados mostram que não são apenas bactérias a explorar este espaço. Os vermes surgem em tubos mineralizados, dissimulados em canais onde circulam fluidos quentes e quimicamente ricos que aquecem a rocha. A energia de que necessitam é fornecida indiretamente por bactérias através de reações químicas - uma espécie de cadeia alimentar interna a funcionar dentro do próprio basalto.

Isto levanta uma pergunta inevitável: qual é, de facto, a dimensão deste “reino” subterrâneo? Os locais amostrados até agora são uma fração mínima quando comparados com a enorme extensão da crosta oceânica. Por isso, a simples existência de alguns pontos com estes organismos pode ser um indício de que habitats semelhantes se repetem ao longo das dorsais médio-oceânicas.

Quanto mais fundo se observa, mais evidente se torna que o planeta é biologicamente mais ativo do que as imagens de satélite sugerem.

(Parágrafo original) Como se confirma vida num ambiente tão difícil?

Trabalhar com testemunhos de perfuração e cavidades rochosas em grande profundidade implica cuidados adicionais: é crucial distinguir organismos realmente subterrâneos de possíveis contaminações trazidas pela perfuração ou pelo manuseamento das amostras. Por isso, estudos deste tipo tendem a combinar observação direta, análises químicas dos fluidos, identificação morfológica e, frequentemente, verificação por métodos laboratoriais para confirmar que os organismos estavam vivos e integrados no habitat.

(Parágrafo original) Implicações para ciclos químicos e para a biodiversidade

Se comunidades animais conseguem persistir no subsolo da crosta oceânica, isso pode ter impacto na forma como se interpreta a circulação de elementos químicos (como enxofre, carbono e metais) em sistemas hidrotermais. Além disso, reforça a ideia de que uma parte significativa da biodiversidade marinha poderá estar “fora do campo de visão”, o que torna a avaliação ecológica e a gestão de riscos substancialmente mais complexas.

Colisão de interesses: mineração em mar profundo vs. ecossistemas invisíveis

Em paralelo com estas descobertas, aceleram-se projetos de mineração em mar profundo. Empresas e alguns Estados procuram nódulos de manganês, cobalto e outros metais no fundo do oceano. Também as acumulações minerais associadas a fontes hidrotermais são vistas como potenciais alvos, incluindo depósitos de metais raros.

O problema é que estas áreas de interesse económico coincidem com os habitats agora descritos. Se veículos robotizados rasgarem o leito marinho, levantarem nuvens de sedimento ou removerem chaminés inteiras, não serão afetadas apenas as colónias visíveis - poderão ser danificados também os ecossistemas subterrâneos, muito menos acessíveis e ainda mais difíceis de recuperar.

Principais riscos da mineração em mar profundo

  • Destruição de fontes hidrotermais e das suas comunidades animais
  • Entupimento de poros e fraturas por plumas de sedimento
  • Interrupção da circulação de fluidos no interior da rocha
  • Desaparecimento de espécies ainda desconhecidas antes mesmo de serem descritas

Por estas razões, várias equipas defendem áreas marinhas protegidas e regras mais rigorosas para a exploração. Argumentam que muitos destes sistemas demoraram milhões de anos a formar-se e que, uma vez destruídos, a recuperação é improvável - ou só ocorreria em escalas de tempo geológicas.

O que isto revela sobre vida fora da Terra: Europa e os oceanos sob gelo

A profundidade oceânica é, há muito, usada como modelo para imaginar ambientes habitáveis noutros corpos celestes. Um dos alvos mais discutidos é Europa, lua gelada de Júpiter. Sob uma crosta de gelo com vários quilómetros de espessura, suspeita-se da existência de um oceano global, alimentado por atividade interna e processos geológicos.

Se em Europa existirem fontes hidrotermais comparáveis às da Terra, a descoberta de que não só microrganismos, mas também animais maiores podem viver no interior da rocha perto dessas fontes expande significativamente o leque do que se considera plausível. Mostra que organismos podem sobreviver com energia química, sem luz, e até em cavidades isoladas sob uma crosta.

A missão da NASA Europa Clipper, em viagem para este satélite, pretende recolher sinais compatíveis com atividade e habitabilidade no subsolo. Quanto melhor se compreenderem os processos no fundo oceânico terrestre, mais bem se poderão interpretar potenciais “assinaturas” de vida extraterrestre.

Fonte hidrotermal, crosta oceânica, larva - o que significam estes termos?

Neste tema surgem conceitos técnicos pouco comuns fora da ciência. Três deles são particularmente centrais.

O que é uma fonte hidrotermal?

Em muitos pontos sob o leito marinho, magma quente aproxima-se da superfície a partir do interior da Terra. A água do mar infiltra-se por fraturas, aquece, dissolve minerais e metais e volta a emergir como jatos quentes. Ao arrefecer na água fria da profundidade, os minerais precipitam e constroem chaminés negras ou esbranquiçadas. É à volta destes “fumadores” que se formam comunidades densas e altamente especializadas.

O que se entende por crosta oceânica?

A crosta oceânica é a camada rochosa relativamente fina, mas extensa e robusta, que constitui o fundo dos oceanos. É composta sobretudo por basalto e forma-se nas dorsais médio-oceânicas, onde novo material sobe continuamente do interior do planeta. Esta crosta inclui uma rede de fendas e cavidades por onde a água circula, alimentando reações químicas que sustentam ecossistemas sem luz.

Como funciona a fase de larva no mar?

Muitos organismos marinhos apresentam um ciclo de vida em duas etapas. Dos ovos eclodem larvas microscópicas, frequentemente muito diferentes dos adultos. Essas larvas derivam com as correntes e conseguem percorrer grandes distâncias. Só mais tarde se fixam, sofrem metamorfose e assumem a forma adulta. Nos vermes de profundidade, esta fase larvar pode tirar partido da circulação subterrânea de água como um verdadeiro “sistema de transporte” para novos habitats.

Por que o estudo do subsolo marinho está a tornar-se indispensável

Os resultados mais recentes mostram que a profundidade não é um cenário estático e inerte: é um sistema ativo e interligado, onde energia e matéria circulam entre a água, o fundo e o subsolo. Assim, qualquer perturbação - seja por alterações climáticas, acidificação ou mineração - pode repercutir-se para além do local imediato, afetando uma rede de processos e comunidades.

Para a investigação, a consequência é clara: futuras campanhas terão de considerar mais seriamente o que acontece sob o leito marinho. Testemunhos de perfuração, medições sísmicas e amostragens direcionadas em fraturas rochosas serão essenciais para estimar a real dimensão destes habitats ocultos. Em paralelo, decisores políticos precisam de dados robustos para negociar zonas de proteção e direitos de utilização na profundidade oceânica.

Quando hoje se observam imagens de vermes tubícolas com metros de comprimento a viver sem luz, não se está apenas a olhar para um ambiente estranho. Está-se a entrar num sistema que reorganiza o entendimento sobre a vida, sobre recursos minerais e até sobre a possibilidade de mundos habitáveis para lá da Terra - um sistema que, ao que tudo indica, mal começou a revelar-se.

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