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Os mosquitos preferem certas pessoas, geralmente devido ao tipo de sangue O e à quantidade de dióxido de carbono que expiram.

Pessoa jovem feliz sentada numa varanda com várias moscas no braço, próximo de uma mesa com líquidos e spray repelente.

Duas pessoas sentam-se lado a lado: mesmo ar, mesma noite, a mesma conversa. Ainda assim, só uma delas parece transformar-se num buffet livre para mosquitos insistentes. As picadas aparecem como pequenas constelações vermelhas, enquanto a pessoa ao lado escapa quase ilesa - talvez com uma única picada, por mera “cortesia”.

Entre amigos, surgem explicações rápidas: “tens sangue doce”, “deves ser do grupo sanguíneo O”, “é o perfume”, “é azar”. Ri-se, mas fica a dúvida: o que é que o teu corpo está a emitir, sem tu dares conta, que os mosquitos acham tão irresistível? Será o cheiro do suor, o hálito, ou algo mais fundo - escrito nos genes?

A investigação tem vindo a esclarecer o mistério. E o que se descobre é, ao mesmo tempo, tranquilizador e um pouco inquietante.

Porque é que algumas pessoas são irresistíveis para os mosquitos

Num churrasco de verão num jardim húmido, o padrão repete-se com uma consistência quase cómica. Há sempre alguém que vira íman: abanam um guardanapo, puxam as mangas, mudam de posição, contam as picadas. O companheiro do lado, na mesma cadeira e com a mesma comida, permanece sereno - como se estivesse noutro mundo.

Quem é mais picado sente-se “escolhido”: azarado, irritado e, por vezes, até insultado pela natureza. Testa pulseiras de citronela, sprays, calças compridas com 28 °C. O resultado raramente muda. Os mosquitos continuam a encontrá-lo primeiro - e depressa.

O mais curioso é que esta cena acontece em pátios, parques de campismo e alojamentos de férias por todo o lado, como se existisse uma regra invisível em ação.

Uma das hipóteses mais conhecidas é o grupo sanguíneo. Vários estudos em laboratório indicam que os mosquitos pousam com maior frequência em pessoas com grupo sanguíneo O do que em pessoas com grupo A ou B. Não é que estejam a “provar” o teu sangue à distância; o que eles detetam são pistas químicas à superfície da pele associadas a esses grupos.

Ao mesmo tempo, os mosquitos seguem o dióxido de carbono (CO₂) como se fossem pequenos sensores guiados por calor. Quem exala mais CO₂ - muitas vezes pessoas mais altas, grávidas ou alguém que acabou de fazer exercício - pode tornar-se um alvo mais fácil de localizar. Quanto maior a “nuvem” de CO₂ que deixas no ar a cada expiração, mais simples é para o mosquito seguir o rasto.

E, por cima disso, há a química da pele: libertamos centenas de compostos. Uma parte importante vem do microbioma cutâneo - as bactérias que vivem discretamente nos braços e nas pernas. Para um mosquito, essa mistura pode cheirar a restaurante de cinco estrelas… ou a cozinha fechada.

A ciência (dos mosquitos) por trás das picadas

Tudo começa pela respiração. Um mosquito consegue detetar CO₂ a mais de 10 metros de distância, como se fosse um trilho invisível no ar. Ao expirares, anuncias: “há aqui um mamífero de sangue quente”. Se estás a correr, a falar muito, ou simplesmente exalas mais CO₂ por natureza, é como se estivesses a aumentar o volume dessa mensagem.

Quando se aproxima, o mosquito passa a usar sinais mais finos: a temperatura da pele, a humidade à tua volta e o conjunto de moléculas que evapora do corpo. O suor, por si só, não é automaticamente “atrativo” - o suor acabado de sair não é tão interessante como o suor que ficou algum tempo na pele e se misturou com bactérias.

A tua taxa metabólica também entra na equação. Subir escadas, beber álcool ou estar num ambiente quente pode elevar ligeiramente a temperatura corporal, aumentar a expiração de CO₂ e alterar o “cocktail” de cheiros. Para um mosquito, isso funciona como um letreiro luminoso.

O tema do grupo sanguíneo O aparece muitas vezes como lenda urbana, mas há dados a sustentá-lo. Em algumas experiências, mosquitos dos géneros Anopheles e Aedes pousaram significativamente mais em pessoas do grupo O do que em pessoas do grupo A. A nuance importante: eles não estão a “provar” o sangue através da pele; estão a reagir a moléculas (incluindo compostos semelhantes a açúcares) libertadas no suor e na pele que, de certa forma, “assinalam” o teu grupo sanguíneo.

Em muitas populações, cerca de 45% das pessoas são do grupo O. Por isso, se és do grupo O e te sentes constantemente atacado, não estás a imaginar. Ainda assim, o grupo sanguíneo é apenas uma peça do puzzle: duas pessoas do grupo O podem ter resultados muito diferentes. É aqui que genética, rotina e ambiente entram silenciosamente e baralham o jogo.

Os investigadores suspeitam que até 85% do que nos torna mais atrativos para os mosquitos pode ser hereditário. Estudos com gémeos são especialmente reveladores: gémeos idênticos tendem a ter padrões de picadas semelhantes, enquanto irmãos não gémeos mostram mais variação. O “cheiro de base” da tua pele - moldado pelos genes e pelo microbioma - pode ser a assinatura que os mosquitos leem enquanto pairam sobre o teu braço.

O que podes mesmo fazer (contra mosquitos) na prática

Se já sabes que és “propenso a mosquitos”, compensa agir antes de começares a contar picadas. Uma regra simples: controla o teu perímetro. Sempre que der, evita água parada, sebes densas e recantos escuros e húmidos onde os mosquitos descansam. Uma pequena mudança de lugar pode ter um impacto grande.

No corpo, aposta em repelentes com eficácia comprovada: DEET, picaridina, IR3535 ou óleo de eucalipto-limão nas zonas expostas, sobretudo tornozelos e pés, onde os mosquitos gostam de pousar. Não tem de ser “da cabeça aos pés”; aplica onde eles atacam primeiro. Se juntares isto a roupa clara, larga e que cubra braços e pernas, crias uma barreira que lhes dificulta o trabalho.

Dentro de casa (ou numa varanda), um gesto surpreendentemente eficaz é apontar uma ventoinha para as pernas e os pés. O fluxo de ar atrapalha o voo frágil do mosquito e ajuda a dispersar a pluma de CO₂ à tua volta - tecnologia simples, efeito real.

Também ajuda ajustar hábitos em noites “com mosquitos”: evita perfumes florais intensos e loções muito perfumadas, porque podem misturar-se com o teu odor natural e tornar-te mais fácil de detetar. E reconsidera roupa escura ao entardecer: os mosquitos tendem a identificar silhuetas escuras com mais facilidade. Tecidos claros destacam-se menos e ainda mantêm a pele mais fresca.

Sejamos realistas: quase ninguém faz isto tudo diariamente. Mas criar três ou quatro reflexos para as noites de verão - repelente, ventoinha, mangas, e verificação de água parada - reduz bastante o número de picadas sem transforma-te num “campo de treino anti-mosquitos”.

A relação com os mosquitos não é um beco sem saída. Algumas escolhas inclinam mesmo a balança. Como me disse um entomólogo numa noite húmida de trabalho de campo:

“Os mosquitos são exigentes, mas não são génios. Se mudares os sinais, mudas o resultado.”

Pensa em camadas, em vez de procurares um produto milagroso: 1. Proteção pessoal: um repelente de que gostes o suficiente para usar. 2. Roupa e calor corporal: tecidos leves e claros; evitar leggings pretas apertadas ao pôr do sol quando possível. 3. Espaço: ventoinhas ligadas, redes mosquiteiras, janelas com resguardo e água parada eliminada após a chuva - desde pratos de vasos a baldes esquecidos.

  • Usa roupa clara e larga ao amanhecer e ao entardecer
  • Aplica repelentes com base científica na pele exposta
  • Coloca uma ventoinha perto das pernas e dos pés quando estás parado no exterior
  • Elimina semanalmente água parada à volta de casa
  • Dorme com rede mosquiteira em zonas de maior risco

Em Portugal, vale ainda olhar para o que está à tua volta: irrigação de jardins, recipientes em varandas, caleiras entupidas e bebedouros de animais podem criar pequenos “berçários” de mosquitos. Em bairros com muitos quintais, a diferença entre uma noite tranquila e uma noite de picadas pode depender de ações simples e repetidas, feitas por várias pessoas ao mesmo tempo.

Viver com o teu “perfil de mosquitos”

Ser o “ímã de mosquitos” do grupo muda a forma como se vive o verão. És tu que pedes mesa no interior, que evitas margens de rios na hora dourada, que leva repelente na mochila quando os outros se esquecem sempre. Há um cansaço discreto em ter de antecipar o desconforto antes de ele acontecer.

Embora grupo sanguíneo O, CO₂, suor e microbioma soem a coisas mecânicas, a experiência é emocional. Para quem quase nunca é picado, duas ou três marcas parecem irrelevantes; para outros, significam noites mal dormidas, pápulas inchadas e, por vezes, marcas na pele. Em férias em família, a diferença entre aproveitar uma varanda ou fechar-se em casa pode resumir-se a quem os mosquitos decidem seguir.

Aceitar que tens um “perfil de mosquitos” não é desistir - é mudar de estratégia. Passa a ser um exercício de teste: perceber que repelente a tua pele tolera melhor, que tecidos aguentas no calor, se a ventoinha no chão altera mesmo as tuas noites. A ciência explica o porquê; o teu corpo mostra-te o como.

Com o tempo, podes notar padrões que os estudos só sugerem: aquele parque que te deixa sempre marcado, ou a varanda de um amigo onde, inexplicavelmente, ficas em paz. Quando partilhas essas observações com amigos, crianças e vizinhos, espalhas conhecimento prático que vai muito além do mito do “sangue doce”.

E fica uma pergunta, mesmo depois de passar a comichão: se um mosquito consegue “ler” o teu corpo com tanta precisão, que mais estarás a comunicar ao mundo vivo sem te aperceberes?

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Papel do CO₂ Os mosquitos seguem o dióxido de carbono exalado para localizar alvos à distância Ajuda a perceber porque falar muito, correr ou estar grávida pode aumentar as picadas
Impacto do grupo sanguíneo O Estudos mostram preferência por pessoas do grupo O através de sinais químicos na pele Explica porque, no mesmo local, alguém é muito mais picado do que quem está ao lado
Estratégias concretas Repelentes validados, roupa adequada, ventoinhas e controlo de água parada Dá ações simples e imediatas para reduzir picadas no dia a dia

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Os mosquitos são mesmo mais atraídos pelo grupo sanguíneo O? Vários estudos laboratoriais sugerem que pousam mais em pessoas do grupo O do que em pessoas dos grupos A ou B, por causa de químicos na pele associados ao grupo sanguíneo - não por “provarem” o sangue antes de picar.
  • Porque é que os mosquitos me picam a mim e não ao meu parceiro? Podes exalar mais CO₂, ter maior temperatura corporal, um microbioma cutâneo diferente ou um grupo sanguíneo diferente, criando um perfil de odor que os mosquitos preferem.
  • A alimentação muda o quão atraente sou para os mosquitos? A evidência é mista; o álcool pode aumentar as picadas ao alterar calor corporal e respiração, enquanto mitos como alho ou vitamina B como “repelentes” não têm suporte científico robusto.
  • Posso reduzir o CO₂ para evitar picadas? Não dá para mudar a tua respiração básica, mas podes dispersar a pluma de CO₂ com ventoinhas, evitar exercício intenso nas horas de maior atividade e afastar-te de vegetação densa e húmida ao entardecer.
  • Qual é a forma mais eficaz de evitar picadas de mosquitos? Combinação de medidas: repelente comprovado na pele exposta, mangas e calças leves e compridas, ventoinha quando estás sentado e remoção regular de água parada à volta de casa.

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