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A medida sobre aquecimento imposta aos franceses gera a indignação de Marine Le Pen.

Pessoa a ajustar o termostato de um radiador num sala com televisão ligada ao fundo.

A presidente do grupo parlamentar do Rassemblement national na Assembleia Nacional veio a público contestar uma medida do Governo que poderá abranger 27 milhões de lares em França. O decreto de 2023, criado no âmbito do plano de sobriedade energética anunciado em 2022, estava previsto para produzir efeitos em 2027, mas o responsável pelas Finanças procurou entretanto desanuviar o debate.

Um decreto que obriga a instalar um termostato nos radiadores

Dentro de dois anos, uma norma aprovada no quadro do plano governamental de 2022 prevê que os franceses tenham de alterar os seus radiadores, acrescentando um termostato. A obrigação, que o Ministério das Finanças francês (Bercy) pretendia aplicar a partir de 2027, gerou uma reação dura de Marine Le Pen, líder do grupo parlamentar do partido de extrema-direita Rassemblement national.

O ponto central da crítica prende-se com a fatura para as famílias, que terão de suportar custos para adequar o aquecimento no inverno, num valor de várias centenas de euros. Nas redes sociais, Marine Le Pen alertou para despesas “entre 60 e 250 euros”, acrescidas de um custo de instalação “entre 150 e 300 euros”.

A deputada considerou ainda que “os franceses, já esmagados pelos preços da energia e pelo aumento ininterrupto de taxas e impostos, já não conseguem suportar estas loucuras normativas e ideológicas”. Indignada, pediu a anulação da medida relativa ao aquecimento, destinada a abranger edifícios públicos e privados. Quando foi anunciada, em 2022, a obrigação vinha acompanhada de um apoio financeiro.

Poupança de electricidade: por que razão o termostato é central

O objetivo da medida é contribuir para as poupanças de electricidade do país. Sem termóstato, torna-se mais difícil controlar a temperatura e evitar consumos desnecessários, o que pode traduzir-se em desperdício de energia. Por isso, o termostato é apresentado como uma peça essencial para optimizar o sistema de aquecimento - mas não está instalado em todo o lado, o que explica por que motivo 27 milhões de lares teriam de se adaptar.

Na prática, um termostato (incluindo versões conectadas) permite ajustar melhor o aquecimento às necessidades reais: horários, temperatura por divisão (quando o sistema o permite) e limitação de picos de consumo. Em casas com hábitos irregulares, este controlo tende a reduzir o aquecimento “por inércia” e ajuda a perceber, com mais transparência, o impacto do aquecimento na fatura mensal.

Fim do apoio à instalação de termóstatos conectados, mas com adiamento da obrigação

Entretanto, o Estado introduziu alterações relevantes. Em primeiro lugar, foi eliminada a ajuda financeira criada para apoiar os agregados familiares na adaptação, após uma vaga de fraudes. O incentivo tornou-se tema de várias reportagens devido a esquemas e burlas.

O mecanismo permitia aos lares receberem até 600 euros para obter um novo sistema de termostato conectado, incluindo equipamento e instalação. Esse montante levou algumas pessoas a apresentarem-se como falsos profissionais para captarem dinheiro público.

Roland Lescure aponta adiamento para 2030 e promete ganhos no consumo

Depois das declarações de Marine Le Pen, o ministro das Finanças, Roland Lescure, afirmou que a medida está “em processo de adiamento para 2030”. A intenção, segundo o ministro, é introduzir maior flexibilidade numa regra que, ainda assim, deveria permitir reduzir em 15% o consumo de electricidade associado ao aquecimento em França.

Numa publicação na plataforma Bluesky, Lescure explicou que o texto representa uma transposição estrita de uma directiva europeia que prevê esta obrigação. Acrescentou que o adiamento serve para dar mais margem às famílias e aos profissionais para se equiparem. Defendeu ainda que os termóstatos conectados nos radiadores “ajudam a controlar melhor as despesas de aquecimento e, assim, a melhorar o poder de compra e o valor da fatura”.

Marine Le Pen saúda a mudança, mas critica a gestão do Governo

Marine Le Pen classificou a resposta do ministro como uma “boa notícia”, mas aproveitou para criticar Roland Lescure, argumentando que o primeiro-ministro, no discurso de encerramento do congresso da Associação dos Presidentes de Câmara de França, teria adiado a medida apenas para edifícios públicos, deixando de fora os privados.

Segundo a deputada do Pas-de-Calais, “o anúncio de hoje aplica esse adiamento aos imóveis particulares, e isso é uma boa notícia!”, reivindicando para si o mérito do alargamento do adiamento ao sector residencial.

O que as famílias devem ter em conta na adaptação do aquecimento

Com o apoio financeiro eliminado por causa de burlas, a escolha de instaladores e fornecedores torna-se ainda mais sensível. Em casos de propostas demasiado agressivas, promessas de “instalação gratuita” ou pedidos de pagamento imediato sem orçamento detalhado, é prudente exigir documentação, referências e um contrato claro que descreva equipamento, mão de obra e prazos.

Importa também clarificar responsabilidades entre proprietários e inquilinos: em muitos cenários, a decisão de modernização do sistema pode depender do proprietário do imóvel, enquanto a poupança na fatura recai sobre quem utiliza o aquecimento no dia a dia. Um calendário mais dilatado - como o adiamento para 2030 - pode facilitar essa coordenação e evitar decisões apressadas num mercado onde a procura tende a aumentar quando a obrigação se aproxima.

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