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Os melhores trabalhos de jardinagem para melhorar o bem-estar na primavera

Mulher a semear sementes numa horta com livro de instruções, pacotes de sementes e regador ao lado.

Kathy Slack: como a jardinagem e o bem-estar se cruzaram no seu “caminho de recuperação”

Em tempos, Kathy Slack vivia a alta rotação: era uma executiva de publicidade bem-sucedida, com um estilo de vida cosmopolita e cheio de viagens. No entanto, a meio dos 30 anos, esse ritmo cobrou o preço - entrou em exaustão, ficou ansiosa e acabou dominada pela depressão.

Na tentativa de conquistar uma melhor relação entre trabalho e vida pessoal, ela e o marido trocaram Londres pelos Cotswolds. A mudança, porém, não trouxe o alívio esperado: na prática, acabou por significar apenas uma deslocação diária muito mais longa.

A certa altura, Slack deixou de trabalhar. Passou um período prolongado sem forças sequer para sair da cama - até que a mãe, com paciência e ternura, conseguiu convencê-la a ir para o exterior.

“Um dia, a minha mãe maravilhosa puxou-me para fora e sentou-me com uma chávena de chá no meio daqueles canteiros de legumes abandonados e cheios de ervas. Se a Miss Havisham tivesse uma horta, teria este aspeto.

“E eu fiquei a olhar para as ervas daninhas e para as minhocas, a ver os insetos a passear por ali, e aquilo acalmou-me. Não foi um momento enorme em que pensei: ‘Meu Deus! Natureza! Estou curada!’ - mas fez-me sentir um pouco menos horrível.”

A mãe deu-lhe algumas sementes para espalhar. Poucas semanas depois, apareceram rabanetes; mais tarde, surgiram alfaces.

“Havia qualquer coisa naquela transformação - uma semente que parecia não ser nada e que, de repente, se tornava algo que eu podia comer. E como sempre gostei de comida e de cozinhar, fiquei completamente presa a isso.”

O livro Rough Patch, de Slack, acompanha esse percurso: da depressão à forma como encontrou consolo na jardinagem. Ela deixou a publicidade, foi trabalhar como apanhadora de fruta numa empresa agrícola biológica e, mais tarde, enveredou pela cozinha, pelo ensino e pela escrita.

Isto aconteceu há mais de uma década, antes de a ligação entre jardim e bem-estar ser tão falada. Hoje, aos 47 anos, Slack tenta passar cada minuto livre no jardim - e está convencida de que a jardinagem a salvou.

“Sei que soa simplista e até um pouco leviano dizer: ‘Ah, os legumes salvaram-me a vida’. Mas a verdade é que tiveram um peso enorme.

“Quando me aproximei da natureza - e, em particular, de cultivar legumes - percebi melhor quais eram os meus valores. No fundo, é um exercício de autoconhecimento. Achei aquilo profundamente criativo e, ao mesmo tempo, muito calmante.

“Era vida real, não a ficção em que eu vivia no mundo da publicidade. Ali estava o que era real, o que eu precisava e o lugar para onde a minha vida devia ir.”

Atualmente, ela dispõe de cerca de 20 metros de espaço de cultivo distribuídos por três canteiros elevados, além de um talhão de horta. Por vezes, ainda conta com pequenos pedaços de terreno cedidos por vizinhos “agricultores por passatempo”, que lhe permitem plantar em áreas que não estão a utilizar.

Para Slack, a primavera tem um significado especial: é quando começa verdadeiramente o ano.

“Para mim, a primavera é o meu Ano Novo, não janeiro. É agora que quero definir o plano do que vou fazer ao longo do ano.”

A seguir, partilha cinco tarefas de primavera que, na sua experiência, podem ajudar a reforçar o bem-estar - mesmo para quem tem pouco espaço, como uma varanda ou um parapeito de janela.

Jardinagem e bem-estar com Kathy Slack: cinco tarefas de primavera para começar bem o ano

1) Semear sementes

“Semear alguma coisa. As minhas preferidas para março - sobretudo em floreiras, vasos e locais mais abrigados - são rabanetes e ervilhas.

“Os rabanetes são o meu ‘legume de entrada’ para pôr as pessoas a cultivar, porque crescem tão depressa que a recompensa parece quase imediata. São muito fáceis e ficam lindíssimos naquele cinzento de fevereiro.

“Também punha, sem dúvida, ervilhas na terra, porque são bastante resistentes e, mesmo que não as deixem chegar a ervilha ‘a sério’, são ótimas para rebentos de ervilha. Dá para cortar e voltar a colher duas ou três vezes e, depois, deixar a planta crescer até dar ervilhas de tamanho normal.

“Tudo isto é uma forma de sentir aquele espanto bom de ver algo tão minúsculo como uma semente de rabanete transformar-se numa rubi comestível do tamanho de uma bola de golfe.”

2) Sujar as mãos

“Meu Deus, eu adoro composto!”, entusiasma-se Slack. “Se tiver um compostor, revire-o - e a primavera é uma ótima altura para espalhar o composto nos canteiros de legumes. Mesmo que não tenha compostor em casa, arranje composto, por exemplo, composto produzido a partir de resíduos verdes do município.

“Antes eram restos de cozinha e agora isto é uma espécie de magia: escuro como chocolate, fofo, cheio de nutrientes. Espalhe nos canteiros de legumes, cubra a superfície dos vasos ou use nos canteiros de flores - mas meta as mãos nesse composto.”

Ela refere que há investigação que sugere que o simples contacto da pele com a terra pode influenciar as substâncias libertadas no cérebro e melhorar o humor.

Quando entramos em contacto com solo saudável, uma bactéria chamada Mycobacterium vaccae pode ser absorvida e estimular a libertação de serotonina, frequentemente conhecida como a “hormona da felicidade”.

3) Planear o ano de cultivo

“Isto pode significar juntar alguns catálogos de sementes e folheá-los. Tem de ser físico, não pode ser online - para mim, isso não resulta”, diz. “Gosto de folhear, virar páginas e sonhar com quantas variedades de abóbora vou conseguir cultivar este ano. Sinto-me inspirada e fico com vontade de chegar lá. É um verdadeiro ato de esperança e deixa-nos entusiasmados.”

4) Mexer o corpo

Slack sugere sair e aproveitar tarefas mais físicas, que ajudam a aumentar as endorfinas - e, com isso, o bem-estar.

“Eu transporto muito composto em carrinho de mão”, conta. “Eu não sou de cavar - sou adepta de cultivo sem cavar - mas também acho que andar por ali, devagar, ir com um balde e arrancar umas ervas daninhas pode ser extremamente terapêutico.”

5) Cultivar ervas no parapeito da janela, a partir de semente

“As ervas aromáticas são excelentes para quem não tem jardim, porque pode usá-las em tudo o que cozinha e, de repente, há ali um bocadinho do seu esforço - mesmo que seja pôr manjericão caseiro em cima de uma pizza aquecida no micro-ondas”, diz Slack.

“Deixa de ser apenas uma refeição pronta: passa a ser um pouco de natureza que você tratou, criou e que depois usou para se alimentar - e isso levanta o espírito.”

Duas ideias extra para tirar mais bem-estar da jardinagem

Criar rotinas pequenas e realistas ajuda a manter a ligação ao jardim sem pressão: 10 minutos por dia a regar, observar pragas, ou simplesmente reparar no crescimento das folhas pode ser tão valioso como uma tarde inteira de trabalho. A consistência dá uma sensação de continuidade - e, para muitas pessoas, isso é um apoio importante quando a ansiedade aperta.

Outra dimensão muitas vezes esquecida é a comunidade. Trocar sementes, mudas e dicas com vizinhos, participar num talhão de horta, ou conversar com alguém no viveiro cria uma rede informal de apoio. A jardinagem pode ser solitária, mas não precisa de o ser - e, para o bem-estar, esse lado social conta tanto quanto o contacto com a terra.

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