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Como dar a uma casa pequena um aspeto mais elegante e sofisticado.

Mulher abre armário branco numa sala de estar moderna com sofás cinzentos e iluminação suave natural.

Quando a designer de interiores e apresentadora Julia Kendell deu os primeiros passos na carreira, a avaliação de uma casa resumia-se, quase sempre, a um critério simples e pouco subtil: metros quadrados. A lógica era directa - quanto maior, melhor.

Presença habitual no Salão de Construção e Renovação durante perto de duas décadas, Kendell recorda que, sempre que alguém avançava com uma ampliação ou construía uma casa de raiz, a conversa tendia a cair no mesmo impulso: “vamos erguer o máximo que conseguirmos”. E, como a área costumava ser sinónimo de valor, muitas pessoas assumiam que essa era a única estratégia sensata.

Nos últimos anos, no entanto, Kendell observa uma mudança profunda na forma como as pessoas encaram a habitação - sobretudo na frequência com que mudam de casa. Hoje, mesmo entre pessoas mais jovens (quando conseguem comprar a primeira habitação), a expectativa é muitas vezes ficar: é a “casa para a vida”. A ideia de mudar ao fim de cinco anos tornou-se menos realista, não só pelo custo, mas também pela dificuldade de voltar a comprar. A pergunta passou a ser outra: como entrar no mercado e, depois, como transformar essa casa num espaço que funcione a longo prazo.

A isto junta-se um factor decisivo: com os custos de construção por metro quadrado em níveis muito elevados, faz mais sentido construir o que é necessário, e não apenas o que “dá para fazer”. E existe ainda uma mudança de mentalidade: uma vida ostensiva, pensada para impressionar vizinhos com uma casa enorme, soa cada vez mais desajustada - especialmente para a geração mais nova, que tende a valorizar mais a funcionalidade, o conforto e a autenticidade.

Para Kendell, o ponto central já não é “ter espaço” - é como a casa está organizada, mobilada e preparada para apoiar o dia a dia da família. Uma casa bem pensada deve transmitir segurança e tranquilidade: entrar, fechar a porta e sentir o corpo relaxar.

Designer de televisão em vários formatos (como Transformação em 60 Minutos e SOS Bricolage) e proprietária da empresa de design de cozinhas Kendell & Cia, a profissional de 57 anos defende que um projecto inteligente consegue fazer uma casa compacta parecer mais rica, mais confortável e mais sofisticada do que uma casa maior, mas mal planeada.

A seguir, partilha formas práticas de criar essa sensação.

Altura antes de largura - repensar o teto

Para Julia Kendell, a altura do teto é um dos sinais de qualidade mais ignorados no design de interiores. Um aumento pequeno - por exemplo, de 2,4 m (medida comum) para 2,6 m - pode alterar por completo a percepção do espaço.

Tetos mais altos tendem a melhorar a entrada de luz, a circulação de ar e a “respiração visual” do ambiente, criando uma sensação mais calma e, por consequência, mais cara. Kendell compara esta ideia às proporções alongadas na moda: tal como uma silhueta alta valoriza a roupa, a verticalidade favorece os espaços interiores.

Quando não é possível mexer na estrutura, ainda assim existem soluções eficazes para puxar o olhar para cima: - Calhas de cortinado no teto - Portas à altura total - Painéis verticais (lambrins ou ripados) que reforçam a direcção ascendente

Outra estratégia que Kendell recomenda é pintar o teto com a mesma cor das paredes, em vez de o manter branco. Ao eliminar um corte visual forte, a divisão parece mais alta e mais coesa. A designer diz ser adepta do color drenching (envolver a divisão numa cor), até porque muitas casas já não têm sancas; e o encontro entre parede colorida e teto branco pode parecer rígido e pouco elegante. Ao uniformizar, os olhos deixam de ficar “presos” nessa linha e passam a focar-se nos elementos realmente interessantes da decoração.

Em termos de impacto, Kendell resume a ideia assim: a altura cria drama; a largura apenas ocupa área.

Luz natural: o verdadeiro luxo num projeto de Julia Kendell

Kendell considera a luz natural um factor determinante: é ela que dá vida às divisões. Um espaço pequeno, mas luminoso, tende a superar um espaço grande e sombrio.

A recomendação passa por dar prioridade à colocação e às proporções das janelas. Na sua visão, janelas mais altas, mesmo que não sejam muito largas, transmitem mais elegância do que janelas baixas e “achatadas”. Para garantir privacidade sem perder claridade, sugere soluções leves e ajustadas: - cortinados translúcidos - portadas interiores - estores bem aplicados (à medida, quando possível)

Sempre que fizer sentido, vale a pena estudar formas de espalhar luz pela casa através de: - envidraçados interiores - portas de vidro - luz emprestada de corredores e caixas de escadas

Kendell explica que o envidraçado interior consiste em colocar um painel de vidro entre duas divisões. Em muitas casas, a frente pode receber mais sol e a parte central ou traseira ficar escura; ao “roubar” claridade das zonas mais luminosas e deixá-la filtrar para as restantes áreas, a diferença é enorme. Para a designer, captar luz diurna é um dos gestos mais transformadores num imóvel.

Iluminação em camadas é um sinal de qualidade

Para Kendell, uma única luminária no centro do teto é um indicador clássico de um espaço pensado “a despachar” ou com orçamento curto. Interiores com aspecto premium quase sempre apostam em iluminação em camadas.

A iluminação, diz, devia estar no topo das prioridades quando se redesenha uma divisão ou se constrói de raiz. Ainda assim, muita gente deixa este tema para o fim - e, por vezes, entrega decisões a quem está em obra, por não ter noção do impacto que a luz tem no resultado. Quando se planeia bem, a divisão muda: ganha profundidade, conforto e carácter.

A meta prática é ter pelo menos três fontes de luz por divisão: - Iluminação ambiente: focos embutidos ou banhadores de parede
- Iluminação funcional: candeeiros de leitura, luzes sob armários na cozinha
- Iluminação de destaque: candeeiros de mesa, iluminação para quadros

A designer reforça que a luz deve orientar o olhar para aquilo que se quer valorizar. Mesmo com materiais caros, um esquema de luz pobre raramente parece verdadeiramente sofisticado - e também não se sente bem ao viver no espaço.

Arrumação embutida vale mais do que ganhar divisões

Kendell é taxativa: a desordem é inimiga do requinte. Uma das maneiras mais eficazes de fazer uma casa parecer mais cara é fazer a arrumação desaparecer.

Para libertar área útil e manter linhas limpas, sugere: - roupeiros embutidos - bancos de janela com arrumação oculta - estantes do chão ao teto - móveis integrados para equipamentos e cabos

Ela destaca um “adversário” frequente no olhar de um designer: a televisão. Apesar de ser desejada por todos - e de estar cada vez maior -, muitas vezes torna-se o primeiro elemento que chama a atenção ao entrar numa sala, o que não favorece uma leitura premium do espaço.

Daí a popularidade da parede multimédia, que integra o ecrã numa composição planeada. Para Kendell, a diferença está em a casa parecer pensada ao detalhe, em vez de remendada com soluções avulsas - e isso melhora simultaneamente o conforto, o funcionamento e a estética.

Escolher menos e apostar em materiais de qualidade

Segundo Kendell, interiores com ar premium não nascem da mistura de muitos materiais diferentes. O que tende a funcionar melhor é usar menos materiais, mas com qualidade, criando continuidade visual.

A recomendação passa por limitar a paleta e repetir acabamentos ao longo da casa para gerar fluidez. Para ela, um pavimento de madeira (ou madeira engenheirada) aplicado de forma consistente transmite mais luxo do que uma combinação aleatória de alcatifa, cerâmica e laminado.

Na sua prática, procura manter coerência entre elementos-chave: - o mesmo pavimento em toda a casa, sempre que possível - as mesmas portas interiores - materiais alinhados (por exemplo, carvalho nas portas, na escada e em detalhes de ferragens quando fizer sentido)

Bem planeado, diz, este tipo de consistência não tem de aumentar o custo global.

Em cozinhas e casas de banho, Kendell aconselha a canalizar orçamento para aquilo que é tocado e usado diariamente - bancadas, torneiras e puxadores - em vez de gastar desproporcionalmente em armários caros. A qualidade nota-se nos pontos de contacto.

No fim, a regra mantém-se: uma divisão pequena, mas executada com cuidado, quase sempre parece mais valiosa do que uma grande, mas feita com materiais baratos.

Dois reforços que elevam o “efeito luxo”: acústica e eficiência

Um aspecto frequentemente esquecido em casas compactas é o conforto acústico. Tecidos (cortinados, tapetes, estofos), painéis de madeira e até estantes com livros ajudam a reduzir eco e ruído, tornando o ambiente mais sereno - e a serenidade é uma das sensações que o luxo transmite.

Além disso, um projecto que parece “caro” hoje também é aquele que se comporta bem ao longo do tempo. Melhorar a eficiência térmica (isolamento, caixilharia competente, sombreamento bem pensado) ajuda a estabilizar a temperatura e a reduzir consumos. Essa consistência de conforto, dia após dia, é parte do que faz uma casa parecer realmente bem desenhada - independentemente dos metros quadrados.

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